Uma narrativa de Thomas Bernhard
Novembro 21, 2009

Acaba de sair em nosso país O Imitador de Vozes, livro do escritor austríaco Thomas Bernhard, sendo composto de mais de cem narrativas de tom satírico. Não li (ainda) o livro, mas encontrei por aí uma de suas narrativas que posto neste espaço. Isto posto, ei-la:
Na Alsácia, descobrimos que um homem de Seledstadt foi levado para o asilo de velhos de Colmar porque sua família afirmava ter ele oitenta anos, segundo se depreendia, aliás, de seus documentos, ao passo que o próprio homem afirmava sem parar ter apenas sessenta, o que a família não suportava mais ouvir e lhe dera a idéia de tentar interná-lo no asilo de Colmar. De fato, diz-se que o homem afirmava aquilo dia e noite e que também em outros aspectos teria transformado a vida da família num horror. Além disso, consta que deixara de se lavar fazia um ano, só caminhava descalço e, de vez em quando, aparecia completamente nu no meio da rua, motivos suficientes, portanto, para interna-lo num manicômio, o que, contudo, a família não queria fazer. Assim foi que tiveram a idéia de manda-lo para Colmar. A muito custo conseguiram leva-lo para lá, mas, uma vez em Colmar, o homem fugiu das irmãs de caridade que o conduziam ao asilo e só foi reencontrado horas mais tarde. As irmãs teriam, então, conseguido convencê-lo a entrar no asilo sem oferecer resistência. No meio da noite, o homem, cujo nome seria Shluemberger, pôs fogo no asilo de velhos de Colmar, matando a todos os quatrocentos e setenta e oito internos. Inclusive a si próprio.
(Tradução de Sérgio Tellaroli)
Um trecho de The Road de McCarthy
Novembro 15, 2009

Three nights later in the foothills of the eastern mountains he woke in the darkness to hear something coming. He lay with his hands at either side of him. The ground was trembling. It was coming toward them.
Papa? The boy said. Papa?
Shh. It’s okay.
What is it, Papa?
It neared, growing louder. Everything trembling. Then it passed beneath them like an underground train and drew away into the night and was gone. The boy clung to him crying, his head buried against his chest. Shh. It’s all right.
I’m so scared.
I know. It’s all right. It’s gone.
What was it, Papa?
It was an earthquake. It’s gone now. We’re all right. Shh.
Alguns Toureiros
Novembro 14, 2009

João Cabral de Melo Neto, poeta recifense, passou trinta anos de sua vida trabalhando como diplomata para o governo brasileiro. Boa parte desse tempo ele passou na Espanha, sendo Sevilha a cidade que mais o marcou sua vida (exceção feita, claro está, a Recife), a qual dedicou vários de seus poemas e inclusive seu último livro, Sevilha Andando.
Neste espaço pretendo postar uma poesia cabraliana contida em Paisagens com Figuras (1954-1955), onde cabral descreve e exalta vários toureiros espanhóis que teve a oportunidade de assistir em sua estadia na Espanha: Manolo González, Pepe Luís, Julio Aparício, Miguel Báez, Antonio Ordóñez e, principalmente, Manoel Rodríguez, o manolete, que irá determinar o núcleo do poema ao ser o centro da comparação que Cabral fará entre o ato de toureiar e o ato da criação poética na metapoesia presente no fim do poema. Isto posto, vamos ao poema:
Alguns Toureiros
A Antônio Houaiss
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema
Antonio Ordóñez
Um poema de Emily Dickinson
Junho 27, 2009
Emily Dickinson (1830-1886), poetisa norte-americana, tendo nascido, vivido e morrido em Amherst, Massachussets. Viveu reclusamente por cerca de vite e cinco anos em sua casa, evitando até mesmo receber visitas.
A morte é um tema central em sua obra, o que faz nós, brasileiros, lembrarmos do poeta recifense Manuel Bandeira que chegou, inclusive, a traduir alguns poemas de Dickinson para o português.
Posto um de seus poema mais famosos, Because I could not stop for Death, um de meus favoritos de sua obra poética.
Because I could not stop for Death,
He kindly stopped for me;
The carriage held but just ourselves
And Immortality.
We slowly drove, he knew no haste,
And I had put away
My labor, and my leisure too,
For his civility.
We passed the school, where children strove
At recess, in the ring;
We passed the fields of gazing grain,
We passed the setting sun.
Or rather, he passed us;
The dews grew quivering and chill,
For only gossamer my gown,
My tippet only tulle.
We paused before a house that seemed
A swelling of the ground;
The roof was scarcely visible,
The cornice but a mound.
Since then ’tis centuries, and yet each
Feels shorter than the day
I first surmised the horses’ heads
Were toward eternity.
(Tradução de Henry Alfred Bugalho em http://www.revistasamizdat.com/2008/10/poemas-de-emily-dickinson.html)
Considero especialmente a primeira e última estrófe brilhantes.
Uma Faca só Lâmina
Junho 26, 2009
Posto um dos melhores poemas que já tive a oportunidade de ler em língua portuguesa: Uma faca só lâmina (ou: serventia das idéias fixas), de autoria de meu conterrâneo João Cabral de Melo Neto. Sem mais delongas, ei-lo:
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
Ludwig e Hermine Wittgenstein
Junho 6, 2009

Hermine e Ludwig Wittgenstein em família
Eu disse a ele [Ludwig Wittgenstein]… que imaginá-lo como professor de escola primária, com sua mente treinada para a filosofia, era para mim como imaginar uma pessoa usando um instrumento de precisão para abrir uma cratera. Ao que Ludwig respondeu com uma comparação que me fez calar: “E você me faz pensar numa pessoa que olha através de uma janela fechada e não consegue explicar para si mesma os estranhos movimentos de um transeunte. Não sabe a tempestade que está caindo lá fora e nem que essa pessoa está tendo de fazer um enorme esforço para manter-se de pé”.
Foi então que entendi o seu estado de espírito.
Hermine Wittgenstein
Pelo Engajamento Político
Maio 29, 2009

Em tempos de total descrédito da atividade e ação política em nosso país, onde a apatia impera na população brasileira sem qualquer sinal de mudança em um futuro remoto, com a maioria da população não demonstrando quaisquer interesse pela política, creio ser fundamental reforçarmos a importância que a política possui nas nossas vidas e na obrigação de nós, homens, como “animais políticos” (nas palavras de Aristóteles), nos envolvermos e refletirmos sobre ela. Assim, posto uma frase de Péricles que segue neste sentido:
Não dizemos que um homem que não revela interesse pela política é um homem que não interfere na vida dos outros; dizemos que não interfere na vida.
(Oração fúnebre de Péricles, in Tucídides, História da Guerra do Peloponeso)
Heidegger e a Técnica
Maio 27, 2009

Estudei bastante, no presente mês, uma conferência do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) intitulada “A Questão da Técnica”. Apesar de achar o texto um pouco obscuro (talvez devido à tradução), o considero um texto com um brilhantismo filosófico ímpar. Tratando da distinção entra a técnica tradicional e a técnica moderna, Heidegger faz uma invstigação de qual impacto a técnica moderna tem em nossa condição humana. Longe de defender uma visão anti-cientificista, infelizmente hoje muito comum nos corredores da academia, o filósofo alemão nos traz uma nova visão sobre a técnica moderna, classificando de ilusória a visão de considerá-la neutra tal como comumente defendida.
Neste meio tempo, tive contato com um pequeno artigo de autoria de Franklin Leopoldo e Silva, professor titular da Universidade de São Paulo, intitulado “Martin Heidegger a Técnica”. Creio tratar-se de um texto onde há uma boa exposição, de maneira clara e suscinta, do que Heidegger pretende com seu texto. Caso haja interesse, o artigo do Prof. Franklin Leopoldo pode ser lido gratuitamente aqui.
Até a próxima.
Filosofia e vida cotidiana
Abril 5, 2009
“What is the use of studying philosophy if all that it does is enable you to talk with some plausibility about some abstruse questions of logic, etc. anf if it does not improve your thinking about the important questions of averyday life?”
Ludwig Wittgenstein.
A Educação pela Pedra
Março 5, 2009
A Educação pela Pedra
Por João Cabral de Melo Neto
Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.