Soneto do Desmantelo Azul
Julho 31, 2006

Soneto do Desmantelo Azul
Carlos Pena Filho
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
Relato de Carnap sobre Wittgenstein
Julho 27, 2006

Ludwig Wittgenstein
Inaugurando a categoria filosofia neste paupérrimo blog, posto um trecho da autobiografia intelectual do filósofo analítico alemão Rudolf Carnap(1891-1970), no qual este relata seus encontros com o filósofo vienese Ludwig Wittgenstein(1889-1951) no final da década de vinte.
Pois muito bem, o filósofo Moritz Schilick(1882-1936) havia avisado ao seu companheiro do Círculo de Viena(Wien Kreis) que tomasse cuidado com o temperamento de Wittgenstein e que não fizesse críticas diretas a sua filosofia, pois este era avesso a discutir suas idéias com opositores.
Tendo isto em mente e sem mais delongas, vamos ao *relato de Carnap:
(Pág. 25)
Quando encontrei Wittgenstein, eu vi que os avisos de Schlick eram perfeitamente justificados. Mas seu comportamento não era causado por algum tipo de arrogância. Em geral, ele tinha um temperamento simpático e muito gentil; mas era hiper-sensível e facilmente irritável. Qualquer coisa que ele dissesse era sempre interessante e estimulante e a forma com a qual ele se expressava era freqüentemente fascinante. Seu ponto de vista e sua atitude com relação às pessoas e aos problemas, mesmo problemas teóricos, eram muito mais similares às de um artista criativo do que às de um cientista; alguém poderia dizer, similar às de um profeta religioso ou de um visionário.
[...]
(Pág 26-27)
Quando Schlick, em outra ocasião, fez um comentário crítico sobre um enunciado metafísico de um filósofo clássico (acho que era Schopenhauer), Wittgenstein surpreendentemente se voltou contra Schlick e defendeu o filósofo e seu trabalho.
Esta e outras ocorrências similares em nossas conversas mostraram que havia um forte conflito interno em Wittgenstein entre sua vida emocional e seu pensamento intelectual. Seu intelecto, trabalhando com grande intensidade e poder penetrante, tinha reconhecido que muitos enunciados no campo da religião e da metafísica não diziam coisa alguma. (…) Mas este resultado era extremamente doloroso a ele emocionalmente, como se ele estivesse compelido a admitir uma fraqueza numa pessoa amada. Schlick e eu, em contraste, não tínhamos qualquer amor pela metafísica ou pela teologia metafísica, e, assim, pudemos abandoná-las sem qualquer qualquer conflito interno ou arrependimento.
Muito interessante, não? A oposição de temperamentos entre Carnap e Wittgenstein era mesmo gritante: enquanto o primeiro era um sujeito extremamente equilibrado, o último, um completo desequilibrado.
*Tradução de Ivan Ferreira da Cunha.
Carta sobre a questão Palestina
Julho 26, 2006
Segue uma carta assinada por quatro dos maiores intelectuais da atualidade expondo sua visão acerca da questão Palestina:
O último capítulo do conflito entre Israel e Palestina começou quando as forças armadas israelenses seqüestraram dois civis, um médico e seu irmão, em Gaza. Um incidente que teve escassa repercussão nos meios de opinião de qualquer parte do mundo, com exceção da imprensa turca. No dia seguinte, os palestinos tomaram como prisioneiro um soldado israelense – e propuseram libertá-lo negociando um intercâmbio de prisioneiros em mãos dos israelenses. Há aproximadamente 10 mil palestinos detidos nas prisões de Israel.
Que este “seqüestro” seja considerado uma atrocidade, enquanto que a ocupação militar ilegal da Cisjordânia e a apropriação sistemática dos recursos naturais dos palestinos – principalmente a água – por parte das forças armadas israelenses é considerada um fato da vida, lamentável mas realista, é típico da dupla moral que com freqüência emprega o Ocidente frente ao que ocorreu aos palestinos, na terra que lhes foi adjudicada mediante acordos internacionais, durante os últimos setenta anos.
Hoje, a uma atrocidade segue-se outra atrocidade; os mísseis improvisados se cruzam com outros sofisticados. Estes últimos, em geral, encontram seu alvo onde vivem os pobres despossuídos e morando empilhados, esperando o que alguma vez se chamou Justiça. Ambas categorias de mísseis dilaceram corpos de maneira horrorosa – quem senão os comandantes de campo podem esquecer isto por um momento?
Cada provocação e contra-provocação é objetada e dá lugar a um sermão. Mas todos os argumentos, acusações e promessas subseqüentes servem como uma distração para desviar a atenção mundial de uma prática militar, econômica e geográfica de longo prazo, cujo objetivo político é nada menos do que a extinção da nação palestina.
Isso deve ser dito em voz alta e clara já que a prática, declarada somente metade das vezes e freqüentemente encoberta, avanças a passos acelerados nestes dias e, em nossa opinião, é preciso reconhecê-la constante e eternamente como o que é, e opor resistência a ela.
Noam Chomsky, José Saramago, John Berger e Haroldo Pinter
Não poderia concordar mais.
Uma homenagem aos concretistas
Julho 25, 2006
Um pequena seleção de poemas pelos fundadores do movimento conhecido como Poesia Concreta, lançado oficialmente no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1956: Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos.

Pós-tudo, 1984.
Augusto de Campos
Ouça aqui.

Tensão, 1956.
Augusto de Campos.
Ouça aqui.

O Quasar, 1975.
Augusto de Campos.
Ouça aqui.
beba coca cola, 1974.
Décio Pignatari
e começa aqui
Haroldo de Campos
Se
Haroldo de Campos
“A poesia concreta é o primeiro movimento internacional que teve, na sua criação, a participação direta, original, de poetas brasileiros.”
Irmãos Campos
God
Julho 24, 2006

Coltrane is GOD!
Cineastas Favoritos
Julho 24, 2006

Nos últimos tempos, sabe-se lá a razão, tenho gostado muito de ler listas, os famosos tops. Como há algum tempo não posto absolutamente nada relacionado a Sétima Arte, resolvi postar uma lista de meus cineastas favoritos.
Obs. 1: Abaixo do nome de cada diretor, posto os filmes que já pude ver deste.
Obs. 2: Em cima do nome de cada filme(como uma expenonencial) está sua posição em relação a minha prefêrencia a outros filmes do diretor. Colocarei apenas os três melhores filmes, ou seja, primeiro, segundo e terceiro colocado.
Expostas estas observações, mãos à massa!
1 – Ernst Ingmar Bergman (Suécia, 1918-)
O Sétimo Selo¹(1956), Morangos Silvestres³(1957), A Fonte da Donzela(1959), Através de um Espelho(1962), Persona²(1966), A Hora do Lobo(1968), Gritos e Sussurros(1972).
2 – Sergei M. Eisentein (Rússia, 1898-1948)
A Greve²(1924), O Encouraçado Potenkin¹(1925), Outubro ou Dez dias que Abalaram o Mundo³(1927), Que Viva o México!(1977).
3 – Orson Welles (EUA, 1915-1985)
Cidadão Kane¹(1941), Soberba³(1942), A Dama de Shangai²(1947), Mr. Arkadin(1955), A Marca da Maldade(1958).
4 – Luchino Visconti(Itália, 1906-1976)
A Terra Treme: O Episódio da Maré²(1948), Belíssima(1951), Noites Brancas(1957), Rocco e Seus Irmãos³(1960), Morte em Veneza¹(1972).
5 – Glauber Rocha(Brasil, 1938-1981)
Deus e o Diabo na Terra do Sol³(1964), Terra em Transe¹(1967), Di(1977), A Idade da Terra²(1980).
6 – Carl Theodor Dreyer(Dinamarca, 1889-1968)
A Paixão de Joana D’Arc¹(1928), O Vampiro³(1932), Ordet²(1955).
7 – Andrei Tarkovski(Rússia, 1932-1986)
Solaris²(1972), O Espelho³(1975), Stalker¹(1979)
8 – Dziga Vertov(Rússia, 1896-1954)
Câmera-Olho²(1924), Requiem a Lenin³(1924), Um Homem Com Uma Câmera¹(1929)
9 – Stanley Kubrick(EUA, 1928-1999)
O Grande Golpe(1955), Glória Feita de Sange(1957), Doutor Fantástico²(1964), 2001: Uma Odisséia no Espaço¹(1968), Laranja Mecânica³(1971), O Iluminado(1980), Nascido Para Matar(1987), De Olhos Bem Fechados(1999).
10 – Jean-Luc Godrd(França, 1930-)
Acossado(1960), Viver a Vida¹(1962), O Desprezo³(1963), Alphaville²(1965), Nossa Música(2004).
Menções Honrosa:
- Jean Renoir(França, 1894-1979)
- Alain Resnais(França, 1922-)
- Aleksandr Dovzhenko(Rússia, 1894-1956)
- Pier Paolo Pasolini(Itália, 1922-1975)
- Michelangelo Antonioni(Itália, 1912-)
Até a próxima.
Álbuns
Julho 23, 2006
O que tenho ouvido nas duas últimas semanas:
JAZZ
Conference of Birds, Dave Holland.
Meditations, John Coltrane.
For Alto, Anthony Braxton.
Free Jazz, Ornette Coleman.
The Shape of Jazz to Come, Ornette Coleman.
You must believe in Spring, Bill Evans.
Portrait of Jazz, Bill Evans.
Undercurrent, Bill Evans.
Workin’, Miles Davis.
Cookin’, Miles Davis.
Return to Forever, Chick Corea.
Duke Ellington & John Coltrane, Duke Ellington e John Coltrane.
Out to Lunch, Eric Dolphy.
My Favorite Things, John Coltrane.
The Olatunji Concer: The Last Live Recording, John Coltrane.
Rock
Strange Days, The Doors.
Starless and Bible Black, King Crimson.
The White Album, The Beatles.
Houses of Holy, Led Zeppelin.
Ceux du Dehours, Univers Zero.
Madacap Laughs, Syd Barrett.
Just Another Band From Cosmic Inferno, Acid Mother’s Temple.
Outros
String Quartets 1908-1939, Bélla Bartók.
Real Gone, Tom Waits.
Bloody Money, Tom Waits.
Leituras (Prosa)
Julho 23, 2006
Últimas leituras:
Memórias do subsolo, Fiódor Dostoiévski.
A Hora da Estrela, Clarice Lispector.
São Bernardo, Graciliano Ramos.
Leitura atual:
Nineteen Eighty-Four (1984), George Orwel.
Próximas leituras(as mais prováveis):
O Estrangeiro, Alberto Camus.
O Processo, Franz Kafka
Até mais!
Israel volta a atacar o Líbano (II)
Julho 22, 2006
- Atualmente, Israel está com duas frentes no Oriente Médio: uma no Líbano e outra na Palestina, na Faixa de Gaza.
- ONG britânica denuncia que 45% das vítimas no Líbano são crianças. Creio que esta informação, assim como tantas outras já divulgadas, demonstra o carater eminentemente perverso do estado israelense com relação a população árabe e, acima de tudo, confirma que ao contrário de que Israel afirma, assim como os EUA (vide o Iraque), que suas tropas recebem ordens para atacar civis.
- O mais impressionante e, acima de tudo, revoltante é ver os chefes dos irmãos Israel e EUA afirmarem que seus ataques são apenas contra terroristas (palestina, líbano…) ou chefes de governos totalitários (Afeganistão e Iraque). Morte de civis, segundo estes, são “efeitos colaterais inevitáveis em uma guerra”. Dismitifcamos, pois, esta lenda: com o poder de precisão das armas de alta tecnologia que estes países possuem, em especial os EUA, é impossível que um míssel teleguiado, por exemplo, atinga hospitais, escolas… como várias vezes já aconteceram. Isso sem contar outros inúmeros crimes, óbvio.
- Total de vítimas do Brasil no Líbano é o maior desde a 2ª Guerra Mundial. Já são oito mortes confirmadas de brasileiros no Líbano.
- Os ataques do Hezbollah a civis isralenses também é condenável, embora em menor grau.
- Anti-Sionismo é completamente diferente de anti-semitismo. A prova definitiva da disjunção dessas posições é a existência de judeus anti-sionistas. É muito importante ter em mente esta diferença.
- Por fim, mais uma vez expresso minha reprovação e condenação a esta guerra perpetrada pelo estado judeu: trata-se de um dos maiores crimes estatais nos últimos tempos. Israel está DESTRUINDO o Líbano.
Israel volta a atacar o Líbano
Julho 21, 2006
Israel voltou a atacar o Líbano no último dia 11 de Julho. O estopim para o ataque, que agora já está sendo abertamente denominado pela imprensa israelense de guerra, foi o sequestro de dois soldados israelenses pelo grupo terrorista libânes Hezzbollah.
Aviso de antemão que não irei fazer um artigo expondo minha visão sobre os conflitos no Oriente Médio.
Apenas exporei minha opinião de forma mais curta e objetiva possível:
- Israel age como um estado terrorista não apenas no evento atual, mas desde sua fundação em 1948, representando a implementação do projeto sionista.
- Não concordo de forma alguma com o método utilizado pelos terroristas islâmicos, seja contra Israel, seja contra os Estados Unidos: o terrorismo. Não obstante, concordo integralmente com as causas que levaram seus adeptos a este ato extremo.
- Faltam-me palavras para descrever a atuação histórica dos EUA, aliado histórico de Israel, no Oriente Médio, visto que a reprovo e condeno enfaticamente.
- O Estados Unicos é um estado terrorista. Afirmo isto não apenas baseado na sua atuação no oriente médio mas em outras partes do mundo(América Latina, Ásia…)
Exposta minha opinião, posto um trecho de um artigo de um jornalista inglês chamado Robert Fisk:
Terrorista, terrorista, terrorista. Há algo perverso em tudo isso, a matança e a destruição em massa e o uso canceroso e hipócrita da palavra “terrorista”. Não, não esqueçamos que o Hezbollah violou o direito internacional, cruzou a fronteira de Israel, matou três soldados e capturou outros dois. Foi um ato de calculada crueldade que o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, jamais deveria permitir. Mas o que ocorreria se o impotente governo libanês tivesse lançado ataques aéreos contra Israel na última vez que as tropas deste país invadiram o Líbano? E se a força aérea libanesa tivesse matado 73 civis israelenses em ataques com bombas em Tel Aviv e Jerusalém? E se um caça libanês tivesse bombardeado o aeroporto Ben Gurión? E se um avião libanês tivesse destruído 26 pontes em Israel? Isso não seria chamado de terrorismo?
Fonte: http://cartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=11713
Site de Fisk: http://www.robert-fisk.com/
Até a próxima.