Roth e a Morte
Setembro 21, 2007

A Folha de São Paulo publicou uma entrevista com o célebre escritor norte-americano Philip Roth acerca de seu mais recente livro: Homem Comum (Everyman). Ao longo da entrevista a temática da morte, tema central de sua nova obra, inevitavelmente veio à tona. Eis então que o que inicialmente parecia ser apenas mais uma entrevista interessante tornou-se o acontecimento fantástico do relato de um homem sobre a indesejável das gentes, como diria Manuel Bandeira.
Folha de SP – Vamos. Há sete anos, o sr. reclamou que seus amigos estavam morrendo…
ROTH – [Gargalha] Pois isso não parou de acontecer!
Folha de SP – Daí o livro ["Homem Comum" começa com um enterro e o tema principal e doença e morte]?
ROTH – Sim, em grande parte. Foi publicado aqui em 2005. Bem, sim, eu tenho ido a muitos funerais e tenho perdido muitos amigos e eu comecei a escrever esse livro no dia seguinte ao funeral de Saul Bellow [escritor, 1915-2005]. O livro não trata de Saul, mas minha cabeça estava profundamente tomada pela inevitabilidade de que todo o mundo que eu conhecia e conheço vai morrer. Então, sim, escrevi como resposta à morte de meu amigo.
Folha de SP – O livro começa com a descrição de um funeral. É parecido com o de Bellow?
ROTH – Não. Nada.
Folha de SP – É parecido com o que imagina que será o seu?
ROTH – O meu próprio? Não… Era apenas um funeral padrão, era apenas uma maneira de introduzir a vida do homem, sua família, as pessoas que o amavam e o conheciam. Eu gostei de começar com o fim e então partir dali.
Folha de SP – O papel das mulheres no livro é muito forte. Como o sr. acha que as mulheres reagirão em seu próprio funeral?
ROTH – Nunca pensei nisso… Fui muito próximo de algumas mulheres. Algumas delas chorarão, outras não.
Folha de SP – Por que “Everyman” [o título original]? Por que o empréstimo de uma peça inglesa do século 15?
ROTH – O “Everyman” original é um conto de moralidade, é uma alegoria cristã sobre a morte. Não sou cristão, não suporto alegorias, então só peguei o título emprestado e fiz a minha própria peça sobre a morte. Só que a versão secular.
Folha de SP – Por que o personagem principal não tem nome?
ROTH – Ele não tem um nome porque originalmente eu não lhe dei um. E, quando eu estava trabalhando na segunda versão, percebi isso e pensei: “Não lhe dê um nome. Deixe ele ser conhecido por seus relacionamentos, como pai, marido, irmão, filho, amante, deixe ele viver por esses relacionamentos e tirar sua identidade por eles”. Que é como nós formamos nossa identidade, por aqueles que nos conhecem como realmente somos.
Folha de SP – O sr. pensa muito em sua própria morte, no momento em que “não será mais”, como escreve no livro?
ROTH – Bem, depois de uma certa idade, é difícil não pensar mais na morte de maneira mais freqüente do que antes. Aos 60, você começa a pensar freqüentemente e, aos 70, a coisa fica realmente séria. Você olha adiante e vê que não tem mais tanto tempo. E esse é um sentimento muito perturbador.
Folha de SP – Mas o sr. não tem medo de morrer?
ROTH – Não tenho? Você que está dizendo isso. Eu estou perplexo pela realidade à vista.
Folha de SP – Numa das passagens mais marcantes do livro, o sr. escreve: “A velhice não é uma batalha, é um massacre”.
ROTH – Você não concorda? Vá a um hospital e dê uma olhada ao redor… [Fica em silêncio]
FOLHA – Eu o deprimo com toda essa conversa?
ROTH – Ah, não, é preciso muito mais do que isso para me deprimir.
Confesso que ao término de minha leitura decidi ler o livro o mais rápido possível.
Até a próxima.