Perante a lei
Dezembro 16, 2008

Perante a lei
Franz Kafka
Há uma porta que dá para a lei. Diante dela, um guardião, o guardião da porta da lei.
Um homem simples chega e pede para entrar. O guardião responde que, naquele dia, não é permitido entrar.
O homem pensa um pouco e pergunta quando poderá entrar. O guardião responde que de repente, mas não agora. Como a porta da lei está aberta, o homem simples se agacha para olhar para dentro por entre as pernas do guardião. O guardião impede o homem de olhar e o adverte que lá dentro há outras portas e outros guardiães, cada um mais forte e feroz que o outro.
O homem simples não imaginava encontrar obstáculos, pois sempre pensara que a lei deveria ser acessível a todos os homens.
O guardião lhe empresta um banquinho para que possa sentar-se à porta da lei e ficar esperando a hora de entrar. Passam-se os dias e os anos.
O homem simples continua perguntando quando poderá entrar. O guardião lhe dá respostas vagas e impessoais, repetindo sempre que a hora de entrar ainda não chegou.
O homem simples tira a roupa do corpo e tenta subornar com ela o guardião da porta da lei. O guardião não recusa: “Aceito, para que você não diga que não tentou tudo. Aceito, mas ainda não posso permitir a sua entrada”.
Com o passar dos anos, o homem simples maldiz seu destino perverso, de dor, sofrimento e velhice sem poder cruzar a porta da lei, que ali continua, diante dele, emanando uma claridade que ofusca seus olhos cansados. Nada lhe resta senão a morte. Agonizando, ocorre-lhe perguntar ao guardião por que durante todos aqueles anos em que esperou, não apareceu nenhuma outra pessoa pedindo para entrar pela porta da lei.
E o guardião responde: “Ninguém quis entrar por esta porta porque ela se destina apenas a você!… Agora, com sua morte, terei de fechá-la”.

TLP 6.52
Dezembro 13, 2008

Wir fühlen, dass selbst, wenn alle möglichen wissenschaftlichen Fragen beantwortet sind, unsere Lebensprobleme noch gar nicht berührt sind.
(Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis tenham obtido resposta, os problemas de nossa vida não terão sido sequer tocados.)
L. WITTGENSTEIN, TLP 6.52