Como faz muito tempo que não posto nada relacionado à poesia neste espaço, resolvi postar dois poemas de Carlos Pena Filho (1929-1960), poeta recifense morto prematuramente aos 31 anos em um acidente de carro. Já postei por aqui o seu mais famoso poema, Soneto do Desmantelo Azul e por ora postarei outro soneto, Soneto, às Cinco Horas da Tarde e outro poema, As Dádivas do Amante.

As Dádivas do Amante

Deu-lhe a mais limpa manhã
Que o tempo ousara inventar.
Deu-lhe até a palavra lã,
E mais não podia dar.

Deu-lhe o azul que o céu possuía
Deu-lhe o verde da ramagem,
Deu-lhe o sol do meio dia
E uma colina selvagem.

Deu-lhe a lembrança passada
E a que ainda estava por vir,
Deu-lhe a bruma dissipada
Que conseguira reunir.

Deu-lhe o exato momento
Em que uma rosa floriu
Nascida do próprio vento;
Ela ainda mais exigiu.

Deu-lhe uns restos de luar
E um amanhecer violento
Que ardia dentro do mar.

Deu-lhe o frio esquecimento
E mais não podia dar.

A Solidão e Sua Porta
A Francisco Brennand

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha,
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Belíssimos, não?
Até a próxima.

Boemia e Academia

Fevereiro 10, 2010

Paulo Vanzolini é doutor em zoologia pela Universidade de Harvard e um dos pesquisadores mais respeitados em sua área. Mas a vida nos bares, desde a época da faculdade de medicina em São Paulo, fez emergir um outro talento. Conseguiu, como poucos, conciliar a paixão pelos estudos e pela boemia sem deixar que a segunda atrapalhasse a primeira.

FONTE: 100 canções essenciais da música popular brasileira, edição especial da revista Bravo!

Ora, Vanzolini, além de ser um dos grandes compositores da música popublar brasileira, sendo Ronda, na opinião deste que vos fala, uma das mais belas canções já escritas neste país, ainda conseguiu ter uma carreira acadêmica como zoólogo extremamente bem sucedida, sendo um dos grandes nomes no país em sua área de atuação, tendo inclusive uma repercussão internacional  bastante significativa, como nos atesta o prêmio fornecido ao conjunto de sua obra científica pela Fundação Guggenheim de Nova York.

Um sujeito como esse deveria ser canonizado ainda vivo, trata-se de um verdadeiro modelo de como a vida humana deve ser conduzida!

Há uma passagem extraordinária na Crítica da Razão Pura, na Doutrina do Método, que contém uma reflexão sobre a natureza da filosofia.9 Kant observa que há dois conceitos de filosofia – veja bem, ele diz “dois conceitos”, não diz “duas filosofias” nem “duas maneiras de fazer filosofia”. São dois conceitos da mesma coisa, e o ponto visado por Kant é que estaremos perdendo algo de essencial acerca da filosofia se nos ativermos apenas a um dos dois conceitos. Ele os chama, respectivamente, o conceito escolástico (Schulbegriff) e o conceito cósmico (Weltbegriff) da filosofia. Segundo o conceito escolástico, a filosofia é exatamente o que os escolásticos fazem: a análise conceitual, o exame da validade de argumentos, etc. – assim se faz filosofia… Mas, em outro sentido, há um conceito de filosofia em que a filosofia não é apenas um assunto dos filósofos, dos escolásticos, porque diz respeito aos fins últimos da vida humana, da razão humana e há coisas que interessam naturalmente a todos os homens. E a idéia crucial aqui é que são dois conceitos de filosofia e não duas filosofias, ou duas maneiras diferentes de fazer filosofia, e que perdemos alguma coisa de fundamental na filosofia quando nos atemos a apenas um desses conceitos. No século XX, no que tiveram de pior, a filosofia analítica representou o conceito escolástico divorciado do conceito cósmico, e a filosofia continental representou o conceito cósmico divorciado do conceito escolástico. O que Kant está dizendo é que é preciso ter as duas coisas: o conceito escolástico sem o conceito cósmico é a filosofia degenerada em escolasticismo – e muito da filosofia analítica virou escolasticismo. (Quando você assiste discussões sobre o realismo modal, sobre a realidade de mundos possíveis, isso é como “quantos anjos podem dançar na ponta de uma agulha?”: é tão interessante, do ponto de vista lógico, e tão irrelevante quanto essa pergunta absurda.) Por outro lado, intuições de café existencialista em Paris sobre o sentido da vida ou o absurdo correspondem ao conceito cósmico divorciado do monitoramento pelo rigor analítico, pela análise conceitual, pelo controle do rigor de argumentos que é o que distingue o conceito escolástico de filosofia. Tipicamente, quando você tem apenas um dos dois conceitos, quando privilegia um dos dois, e empobrece a sua concepção de filosofia por causa disso, o resultado é o divórcio que, no que tiveram de pior, caracterizou a falta de comunicação entre a tradição analítica e a tradição continental. Você imagina um heideggeriano e um carnapiano se defrontando: aos olhos do heideggeriano, o outro passa por um alienado, por alguém que limitou seu horizonte a questões lógico-linguísticas que apenas encobrem os verdadeiros problemas; aos olhos do carnapiano, o primeiro é pouco mais que um charlatão, a fazer excursões divagatórias não monitoradas por nenhum controle de rigor argumentativo, sequer pelo respeito à gramática! Esse mal-entendido — é o que Kant está dizendo naquela passagem da ‘Arquitetônica da Razão Pura’ — é o confronto de duas concepções empobrecidas de filosofia.

Declaração do Prof. Dr. Paulo Faria (UFRGS) em uma entrevista concedida ao Programa Pet-Filosofia do Departamento de Filosofia da UFPR. A entrevista completa está disponível aqui. Vale a pena ler.

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