Há uma passagem extraordinária na Crítica da Razão Pura, na Doutrina do Método, que contém uma reflexão sobre a natureza da filosofia.9 Kant observa que há dois conceitos de filosofia – veja bem, ele diz “dois conceitos”, não diz “duas filosofias” nem “duas maneiras de fazer filosofia”. São dois conceitos da mesma coisa, e o ponto visado por Kant é que estaremos perdendo algo de essencial acerca da filosofia se nos ativermos apenas a um dos dois conceitos. Ele os chama, respectivamente, o conceito escolástico (Schulbegriff) e o conceito cósmico (Weltbegriff) da filosofia. Segundo o conceito escolástico, a filosofia é exatamente o que os escolásticos fazem: a análise conceitual, o exame da validade de argumentos, etc. – assim se faz filosofia… Mas, em outro sentido, há um conceito de filosofia em que a filosofia não é apenas um assunto dos filósofos, dos escolásticos, porque diz respeito aos fins últimos da vida humana, da razão humana e há coisas que interessam naturalmente a todos os homens. E a idéia crucial aqui é que são dois conceitos de filosofia e não duas filosofias, ou duas maneiras diferentes de fazer filosofia, e que perdemos alguma coisa de fundamental na filosofia quando nos atemos a apenas um desses conceitos. No século XX, no que tiveram de pior, a filosofia analítica representou o conceito escolástico divorciado do conceito cósmico, e a filosofia continental representou o conceito cósmico divorciado do conceito escolástico. O que Kant está dizendo é que é preciso ter as duas coisas: o conceito escolástico sem o conceito cósmico é a filosofia degenerada em escolasticismo – e muito da filosofia analítica virou escolasticismo. (Quando você assiste discussões sobre o realismo modal, sobre a realidade de mundos possíveis, isso é como “quantos anjos podem dançar na ponta de uma agulha?”: é tão interessante, do ponto de vista lógico, e tão irrelevante quanto essa pergunta absurda.) Por outro lado, intuições de café existencialista em Paris sobre o sentido da vida ou o absurdo correspondem ao conceito cósmico divorciado do monitoramento pelo rigor analítico, pela análise conceitual, pelo controle do rigor de argumentos que é o que distingue o conceito escolástico de filosofia. Tipicamente, quando você tem apenas um dos dois conceitos, quando privilegia um dos dois, e empobrece a sua concepção de filosofia por causa disso, o resultado é o divórcio que, no que tiveram de pior, caracterizou a falta de comunicação entre a tradição analítica e a tradição continental. Você imagina um heideggeriano e um carnapiano se defrontando: aos olhos do heideggeriano, o outro passa por um alienado, por alguém que limitou seu horizonte a questões lógico-linguísticas que apenas encobrem os verdadeiros problemas; aos olhos do carnapiano, o primeiro é pouco mais que um charlatão, a fazer excursões divagatórias não monitoradas por nenhum controle de rigor argumentativo, sequer pelo respeito à gramática! Esse mal-entendido — é o que Kant está dizendo naquela passagem da ‘Arquitetônica da Razão Pura’ — é o confronto de duas concepções empobrecidas de filosofia.

Declaração do Prof. Dr. Paulo Faria (UFRGS) em uma entrevista concedida ao Programa Pet-Filosofia do Departamento de Filosofia da UFPR. A entrevista completa está disponível aqui. Vale a pena ler.

O equilibrista

Dezembro 15, 2009

Um pensador religioso honesto é como um equilibrista na corda bamba. Quase parece que ele está andando sobre o nada, apenas ar. Seu apoio é o mais escasso imaginável. E mesmo assim é possível andar sobre ele.
L. Wittgenstein in “Cultura e Valor”.

Qual não foi minha surpresao ao abrir o livro Wittgenstein`s Apprenticeship with Russell de Gregory Landini (Cambridge University Press, 2007) e encontrar esta foto retratando uma conversa entre Ludwig Wittgenstein e Bertrand Russell? Ao que consta a foto data de 1922, ou seja, ano da publicação da primeira tradução do Tractatus Logico-Philosophicus com a histórica e controversa introdução de Russell ao livro.
Minha emoção ao tomar conhecimento deste foto foi realmente muito grande.

P.S.: Os direitos sobre a foto pertencem aos arquivos de Dora Russell na McMaster University Library.

Hermine e Ludwig Wittgenstein em família

Hermine e Ludwig Wittgenstein em família

Eu disse a ele [Ludwig Wittgenstein]… que imaginá-lo como professor de escola primária, com sua mente treinada para a filosofia, era para mim como imaginar uma pessoa usando um instrumento de precisão para abrir uma cratera. Ao que Ludwig respondeu com uma comparação que me fez calar: “E você me faz pensar numa pessoa que olha através de uma janela fechada e não consegue explicar para si mesma os estranhos movimentos de um transeunte. Não sabe a tempestade que está caindo lá fora e nem que essa pessoa está tendo de fazer um enorme esforço para manter-se de pé”.
Foi então que entendi o seu estado de espírito.

Hermine Wittgenstein

Heidegger e a Técnica

Maio 27, 2009

Estudei bastante, no presente mês, uma conferência do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) intitulada “A Questão da Técnica”. Apesar de achar o texto um pouco obscuro (talvez devido à tradução), o considero um texto com um brilhantismo filosófico ímpar. Tratando da distinção entra a técnica tradicional e a técnica moderna, Heidegger faz uma invstigação de qual impacto a técnica moderna tem em nossa condição humana. Longe de defender uma visão anti-cientificista, infelizmente hoje muito comum nos corredores da academia, o filósofo alemão nos traz uma nova visão sobre a técnica moderna, classificando de ilusória a visão de considerá-la neutra tal como comumente defendida.

Neste meio tempo, tive contato com um pequeno artigo de autoria de Franklin Leopoldo e Silva, professor titular da Universidade de São Paulo, intitulado “Martin Heidegger a Técnica”. Creio tratar-se de um texto onde há uma boa exposição, de maneira clara e suscinta, do que Heidegger pretende com seu texto. Caso haja interesse, o artigo do Prof. Franklin Leopoldo pode ser lido gratuitamente aqui.

Até a próxima.

“What is the use of studying philosophy if all that it does is enable you to talk with some plausibility about some abstruse questions of logic, etc. anf if it does not improve your thinking about the important questions of averyday life?”

Ludwig Wittgenstein.

Nenhum sistema filosófico é definitivo, porque a própria vida não é definitiva. Um sistema filosófico resolve um grupo de problemas historicamente dado e prepara as condições para a proposição de outros problemas, isto é, de novos sistemas. Sempre foi assim e sempre será assim.

Benedetto Croce (1866-1952), filósofo italiano.

Carta de Russell para Frege
Friday’s Hill, Haslemere, 16 de Junho de 1902

Caro colega

Há ano e meio tomei conhecimento do seu Grundgesetze

der Arithmetik, mas apenas agora encontrei tempo para fazer um

estudo mais rigoroso, como era minha intenção, sobre o seu trabalho.

Estou em completo acordo consigo no essencial, particularmente

quando rejeita qualquer elemento psicológico [Moment] 2 na lógica e

quando atribui grande valor a uma ideografia [Begriffsschrift] para

os fundamentos da matemática e da lógica formal, as quais, em boa

verdade, dificilmente se podem distinguir. Relativamente a muitas

questões particulares, há no seu trabalho discussões, distinções e

definições que dificilmente se encontrarão no trabalho de outros

lógicos. Especialmente no que diz respeito à função, eu próprio fui

conduzido a observações que são as mesmas, mesmo nos detalhes. Há

apenas um ponto onde encontrei uma dificuldade. O colega diz que uma

função também pode actuar como elemento indeterminado. Eu acreditava

nisto, mas agora esta perspectiva parece-me duvidosa pela seguinte

contradição. Seja w o predicado: para ser predicado, não pode ser

predicado de si próprio. Pode w ser predicado de si próprio? A cada

resposta o seu oposto segue-se. Portanto podemos concluir que w não

é um predicado. Da mesma maneira, não existe nenhuma classe (como

uma totalidade) de classes que, sendo cada uma tomada como uma

totalidade, não pertença a si própria. Disto concluo que, sob certas

circunstâncias, uma colecção definível [Menge] 3 não forma uma

totalidade.

Estou a acabar um livro sobre os princípios da

matemática no qual gostaria de discutir o seu trabalho muito

aprofundadamente Já tenho os seus livros ou vou comprá-los

brevemente, mas ficar-lhe-ia muito grato se me pudesse mandar

separatas dos seus artigos de revistas. No caso de ser impossível,

obtê-los-ei numa biblioteca.

O tratamento exacto da lógica em questões fundamentais,

onde os símbolos falham, tem ficado muito para trás. Nos seus

trabalhos encontro aquilo que de melhor há no nosso tempo razão pela

qual me permito exprimir o meu profundo respeito por si. É

lamentável não ter sido publicado a segunda edição do seu

Grundgesetze. Espero que isto ainda venha a ser feito.

Muito respeitosamente este seu,

Bertrand Russell.
___________________

1- Heijenoort, J.(1967).From Frege to Gödel.Cambridge, Massachusetts:

Harvard University Press, pp.124-125.

2- Momento, em alemão (nota do tradutor);

3- Sujeito, em alemão (nota do tradutor);

Tradução: Olga Pombo (opombo@fc.ul.pt)

filosofo1.jpg
Filósofo em Meditação (1632), Rembrandt.

As pessoas geralmente sabem operar com um equipamento conceitual de enorme riqueza e variedade, que inclui as noções estruturais básicas de identidade, verdade, existência, objetos materiais, estados mentais, espaço e tempo. Mas esse domínio prático não implica a compreensão teórica. É essa compreensão que a filosofia procura alcançar.
Peter F. Strawson(1919-2006), Análise e Metafísica (Analysis and Metaphysics).

O filósofo trata uma questão como uma doença.
Ludwig Wittgenstein(1889-2006), Investigações Filosóficas (Philosophische Untersuchungen), § 255.

A caracterisitização geral mais segura da filosofia européia é que esta consiste em uma série de rodapés da obra de Platão.
Alfredo North Whitehead(1861-1947).

A admiração é própria da natureza do filósofo; e a filosofia deriva apenas da estupefação.
Platão(427 a.C.-347 a.C.).

Os erros da religião são perigosos; os da filosofia, apenas ridículos.
David Hume(1711-1776).

spinoza.jpg
Spinoza

Posto a sentença na qual a Sinagoga de Amsterdam excomunga e bane o filósofo luso-holandês Baruch de Spinoza (1632-1677). Proferida em 1656, a sentença assinalou uma reviravolta na vida do filósofo, pois com a excomungação seus amigos judeus e parentes o abandonaram. Consta, inclusive, que sua irmã contestou até mesmo seu direito à herança paterna, levando Spinoza a entrar com um processo. Ganha a causa, não obstante, o filósofo recusou tudo, pois estava apenas lutando por seu direito e não pelos benefícios derivados deste último.

 

Pois bem, sem mais delongas, eis a supracitada *sentença:

 

Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch de Espinosa, estando de acordo toda a sagrada comunidade, reunida diante dos livros sagrados. Que ele seja execrado durante o dia e execrado à noite; seja execrado ao deitar-se e execrado ao levantar-se; execrado ao sair e execrado ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou aceite; que a ira e o desfavor do Senhor, de agora em diante, recaiam sobre esse homem, carreguem-no com todas as maldições escritas no Livro do Senhor e apaguem seu nome de sob o firmamento. Por meio deste documento ficai, portanto, avisados de que ninguém poderá manter conversação com ele pela palavra oral, ter comunicação com ele por escrito; de que ninguém poderá prestar-lhe nenhum serviço, habitar sob o mesmo teto que ele, aproximar-se dele a uma distância de menos de quatro cúbitos e de que ninguém possa ler qualquer papel ditado por ele ou escrito por sua mão.

 

Assustador, não?!

 

*Contido no prefácio do volume de Spinoza da coleção Os Pensadores.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.