Demais

Um pai de família, querido e famoso fazia décadas por seu dito senso familiar extraordinário e que, num sábado à tarde, quando por certo o tempo estava muito abafado, matou quatro de seus seis filhos, justificou-se no tribunal alegando que, de repente, os filhos haviam se tornado demais para ele.

Aumento

No tribunal distrital de Wels, uma senhora com quarenta e oito condenações anteriores, que o juiz, logo na abertura deste seu mais recente julgamento, como relata o jornal local, caracterizou como ladra anciã e bem conhecida da justiça e cuja presente acusação se devia ao furto de um monóculo inteiramente inútil para ela, roubado havia pouco de uma falecida frequentadora de ópera, a qual já não conseguia andar fazia muitos anos, não ia mais à ópera e, por essa mesma razão, não apenas nunca mais utilizara o monóculo mas também o esquecera por completo, como se verificou ao longo do julgamento – essa senhora, pois, logrou ter sua pena de apenas três meses de prisão aumentada em mais seis meses mediante um safanão que desferiu no juiz tão logo proferida a sentença. Esperava conseguir no mínimo nove meses de prisão, porque não suportava mais viver em liberdade, alegou ela.

Prospecto

Um casal de Salzburgo que sempre trabalhou e agora gozava de aposentadoria dupla teve a ideia de, no final do inverno, fazer uma viagem para Zell am See, na região de Pinzgau, razão pela qual providenciou um prospecto da cidade, alvo de tantos elogios, que pudesse folhear para, dessa forma, escolher uma pousada que parecesse apropriada a seu intento e onde pudesse passar duas ou três semanas. E, com efeito, o casal, que gostava de viajar, encontrou no prospecto uma pousada que pareceu corresponder às expectativas e exigências de ambos, empreendendo, assim, sua viagem. Quando, porém, terminada a jornada bastante cansativa até Zell am See, os dois adentraram a pousada escolhida, foram obrigados a constatar que, em tudo o que haviam esperado, ela contrariava suas expectativas. Por exemplo, os quartos, que o prospecto descrevera como muito simpático, eram escuros, e pareceu aos cônjugues horrorizados que cada um deles continha um caixão fechado, no qual estava inscrito sempre e somente o seu nome.

The Lost Generation

Dezembro 2, 2009


A “Geração Perdida” é um termo cunhado por Gertrude Stein que se refere a escritores norte-americanos expatriados na Paris dos anos vinte, tendo como principais representantes Ernest Hemingway, F. Scottt Fitzgerald, John dos Passos, John Steinbeck e Ezra Pound. O texto a seguir é o terceiro capítulo do livro de memórias de Hemingway dessa época, Paris é uma festa, descrevendo como esse termo surgiu e as reflexões de Hemingway sobre tudo isso. Vale muito a pena ler.


Une Génération Perdue


Foi Fácil adquirir o hábito de parar na rue de Fleurus, 27, ao fim da tarde, em busca de aquecimento, dos grandes quadros e do bate-papo. Frequentemente Miss Stein não tinha visitas, mostrava-se muito amiga e durante muito tempo foi até afetuosa. Quando eu voltava das viagens que fazia para a cobertura de diversas conferências políticas, reportagens no Oriente Próximo ou na Alemanha, por conta do jornal canadense ou da agência de notícias para os quais trabalhava, ela queria que Ihe contasse todos os detalhes divertidos. Sempre havia coisas engraçadas a contar e ela gostava de ouvi-las, apreciando também aquilo que os alemães chamam de histórias de humor negro. Miss Stein queria conhecer o lado alegre do que se passava pelo mundo; nunca o lado real, nunca a lado mau.

Eu era jovem e nada sombrio e, como sempre havia coisas estranhas e cómicas acontecendo nos piores momentos, Miss Stein gostava de ouvi-las. Das outras coisas eu não falava: preferia escrever sobre elas.

Quando não tinha voltado de viagem alguma e ia até à rue de Fleurus para um bate-papo depois do trabalho procurava às vezes conseguir que Miss Stein falasse sobre livros.

Quando eu estava escrevendo, tinha necessidade de ler qualquer coisa nos momentos de descanso. Se ficasse pensando no trabalho, perderia meu texto antes de poder continuá-lo no dia seguinte.

Tinha que fazer exercício, cansar o corpo e era ótimo fazer amor com quem se amava. Isso era melhor do que qualquer outra coisa. Mas, depois, quando me sentia vazio, era preciso ler para não pensar no trabalho, nem me aborrecer com ele até poder retomá-lo. Já tinha aprendido a nunca esvaziar completamente meu poço literário, deixando que, à noite, as fontes que o alimentavam tornassem a enchê-lo.

Para manter o espírito afastado do que escrevia, às vezes, depois de ter trabalhado, lia escritores que estavam em plena atividade naquele tempo, tais como Aldous Huxley, D. H. Lawrence ou quaisquer outros, cujos livros eu pudesse obter na biblioteca de Sylvia Beach ou comprar nos sebos ao longo do cais.

- Huxley é um homem morto – disse Miss Stein. – Por que você quer ler um homem morto? Você não vê que ele está morto?

Não podia ver, então, que ele fosse um homem morto, e respondi que seus livros me divertiam e me esvaziavam a cabeça.

- Você devia ler somente o que é verdadeiramente bom ou o que é francamente mau.

- Estive lendo livros verdadeiramente bons todos os invernos, como fiz no último e como farei no próximo. Para dizer a verdade, não gosto de livros francamente maus.

- Por quê, então, lê essa droga? É uma droga empolada, Hemingway. Escrita por um morto.

- Gosto de ver o que estão escrevendo – disse eu – E descanso o espírito enquanto faço isso.

- Quem mais você está lendo agora?

- D. H. Lawrence – disse. – Ele escreveu alguns contos muitos bons, como O Oficial Prussiano.

- Tentei ler os romances dele. Ele é impossível. É patético e absurdo. Escreve como se fosse um doente.

- Gostei de Filhos e Amantes e de Pavão Branco, disse. Talvez deste não tanto. Não consegui ler Mulheres Apaixonadas.

- Se não quer ler o que é mau e deseja alguma coisa que prenderá o seu interesse e é maravilhosa, à sua maneira, deveria ler Marie Belloc Lowndes.

Nunca tinha ouvido falar dela, e Miss Stein emprestou-me O Inquilino, essa maravilhosa história de Jack, o Estripador, bem como outro livro sobre um assassínio, num lugar afastado de Paris que só podia ser Enghien les Bains. Eram ambos livros esplêndidos para depois do trabalho, os personagens dignos de crédito, o enredo e o terror nunca soando falso. Eram mesmo perfeitos como leitura para depois do trabalho, e li tudo que havia de Mrs. Belloc Lowndes. Eram poucos livros, nenhum tão bom como os dois primeiros, e nada foi tão bom como eles para as horas vagas do dia ou da noite até surgirem os primeiros belos livros de Simenon.

Penso que Miss Stein teria gostado dos bons Simenons – o primeiro que li foi ou L’Écluse Numéro 1 ou La Maison du Canal – mas não tenho certeza, porque, quando conheci Miss Stein, ela não gostava de ler francês embora adorasse falá-lo. Jane Flanner deu-me os primeiros dois Simenons que li. Ela adorava ler francês e já lia Simenon desde quando ele era repórter policial.

Durante três ou quatro anos em que fomos bons amigos, não consigo lembrar-me de ter ouvido Gertrude Stein falar bem de qualquer escritor que não tivesse escrito favoravelmente sobre sua obra ou feito alguma coisa para promover sua carreira, com exceção de Ronald Firbank e, mais tarde, de Scott Fitzgerald. Quando a encontrei pela primeira vez, ela não se referiu a Sherwood Anderson como escritor, mas falou ardentemente dele como homem, dos seus grandes olhos italianos, belos e quentes, da sua bondade e do seu encanto.

Pouco me importava com os grandes olhos italianos, belos e quentes, de Sherwood Anderson, mas gostava muito de alguns de seus contos. Eram escritos de modo simples e às vezes com elegância de estilo; ele conhecia as pessoas a respeito de quem escrevia e se interessava profundamente por elas. Miss Stein não quis falar de seus contos, mas somente dele como pessoa.

- O que acha dos romances dele? perguntei. Mas foi em vão; negava-se a falar das obras de Anderson como também das de Joyce. Se alguém se referisse duas vezes a Joyce não seria convidado a voltar. Era como fazer referências elogiosas a um general na presença de outro general. Você aprende a não fazer isso na primeira vez que comete o erro. Pode-se contudo mencionar o nome de um general desde que tenha sido derrotado pelo general com quem se está falando. O general com quem se está falando elogiará bastante o general derrotado, e entrará gostosamente em detalhes sobre o modo como o derrotou.

Os contos de Anderson eram bons demais para tornar amena a conversa. Eu estava disposto a dizer a Miss Stein o quanto me pareciam estranhamente pobres os romances

dele, mas isto teria sido mau também, porque seria criticar um dos seus mais leais defensores. Quando finalmente ele escreveu Dark Laughter, um romance tão terrivelmente fraco, vazio e afetado que não pude deixar de criticá-lo numa paródia,* Miss Stein ficou muito aborrecida. Eu havia atacado alguém que era parte de sua equipagem. Mas não se zangaria tanto assim, tempos atrás. Ela própria começou a elogiar Sherwood com entusiasmo somente depois dele ter decaído como escritor.

Ela se zangara um dia com Ezra Pound porque ele se sentou bruscamente numa pequena cadeira frágil e sem dúvida desconfortável, que talvez lhe tivesse oferecido de propósito, desconjuntando-a ou quebrando-a. O fato de ele ser um grande poeta, um homem gentil e generoso, que teria podido acomodar-se numa cadeira de tamanho normal, não foi levado em consideração. As razões de sua antipatia por Ezra, hábil e maliciosamente expostas, foram inventadas anos mais tarde.

Foi quando minha mulher e eu regressamos do Canadá e passámos a morar na rue Notre-Dame-des-Champs, sendo Miss Stein e eu bons amigos ainda, que me fez a observação sobre a geração perdida. Tinha tido algum contratempo com o arranque do velho Ford modelo T, que dirigia então; o rapaz que trabalhava na oficina mecânica e tinha combatido no último ano da guerra não se mostrara competente no tal conserto do Ford de Miss Stein, ou talvez não lhe tivesse dado prioridade sobre outros veículos. Seja como fôr, ele não tinha sido sérieux e fora severamente repreendido pelo patron da garagem, diante do protesto de Miss Stein. O patron lhe dissera: – Vocês todos são uma génération perdue.

- É isso mesmo o que vocês são. É isso o que vocês são – disse Miss Stein – Todos vocês, essa rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração perdida.

- Você acha? – perguntei.

- São – insistiu ela: – Vocês não têm respeito por coisa alguma. Vocês bebem até morrer…

- O tal mecánico estava bêbedo? – perguntei.

- Evidentemente não.

- Já me viu bêbedo alguma vez?

- Não. Mas seus amigos são bêbedos.

- Tenho ficado bêbedo algumas vezes – disse- Mas jamais estive aqui nesse estado.

- Evidentemente não. Não disse isso.

- O patron do rapaz é que estava provavelmente bêbedo às onze horas da manhã – disse eu. – É por isso que diz frases tão encantadoras.

- Não discuta comigo, Hemingway – disse Miss Stein. – Não adianta nada. Vocês todos são uma geração perdida, exatamente como o dono da garagem disse.

Mais tarde, quando escrevi meu primeiro romance, procurei contrabalançar a citação que Miss Stein fizera do dono da garagem com outra do Eclesiastes. Naquela noite, caminhando de volta para casa, pensei no rapaz da garagem e me perguntei se ele teria sido transportado alguma vez num daqueles veículos, convertido em ambulância. Lembrei-me de como costumavam queimar seus freios descendo estradas de montanha com uma carga completa de feridos, engrenados em primeira e, finalmente, até mesmo na marcha à ré; e de como os últimos modelos T foram jogados despenhadeiro abaixo, quando substituídos por grandes Fiats com boas caixas de mudança e freios de metal. Pensei em Miss Stein e em Sherwood Anderson, em egoísmo e preguiça mental versus disciplina, e pensei também: “veja só quem chama os outros de geração perdida!” E então, quando me aproximei do Closerie des Lilas, os refletores iluminando meu velho amigo – a estátua do Marechal Ney com a sua espada desembainhada – as sombras das árvores batendo no bronze e ele sózinho ali; sem ninguém atrás dele, lembrei-me de seu fiasco em Waterloo e concluí que todas as gerações eram perdidas por alguma coisa, sempre tinham sido e sempre haveriam de ser. Parei no Lilas para fazer companhia à estátua e beber uma cerveja gelada antes de ir para casa, para o apartamento sobre a serraria. Mas, sentado ali com a cerveja, contemplando a estátua e lembrando-me dos muitos dias que Ney tinha combatido pessoalmente com a retaguarda, na retirada de Moscou, quando Napoleão já tinha ido embora de carruagem, com Caulaincourt, pensei na cálida e afeiçoada amiga que Miss Stein tinha sido e nas belas coisas que dissera de Apollinaire e de sua morte no dia do Armistício de 1918, com a multidão gritando à bas Gillaume e Apollinaire, no delírio, pensando que estavam gritando contra ele. Prometi-me fazer tudo para servir a Miss Stein e ajudá-la a obter reconhecimento pela boa obra que fêz, enquanto eu pudesse, com as graças de Deus e de meu amigo Ney. Mas que fossem para o inferno sua conversa mole sobre a tal geração perdida e todos os rótulos sujos e fáceis. Quando cheguei a minha casa, atravessando o pátio e subindo as escadas, e vi minha mulher, meu filho e o gato F. Puss, todos felizes, ao pé da lareira, disse à minha mulher:

- Você sabe que Gertrude é boa, apesar de tudo?

- Sem dúvida, Tatie.

- Mas diz muita besteira de vez em quando.

- Nunca me dirige a palavra – disse Hadley. – Sou apenas uma esposa. Quem conversa comigo é a sua companheira.

Tradução de Enio Silveira.

Acaba de sair em nosso país O Imitador de Vozes, livro do escritor austríaco Thomas Bernhard, sendo composto de mais de cem narrativas de tom satírico. Não li (ainda) o livro, mas encontrei por aí uma de suas narrativas que posto neste espaço. Isto posto, ei-la:

Schluemberger

Na Alsácia, descobrimos que um homem de Seledstadt foi levado para o asilo de velhos de Colmar porque sua família afirmava ter ele oitenta anos, segundo se depreendia, aliás, de seus documentos, ao passo que o próprio homem afirmava sem parar ter apenas sessenta, o que a família não suportava mais ouvir e lhe dera a idéia de tentar interná-lo no asilo de Colmar. De fato, diz-se que o homem afirmava aquilo dia e noite e que também em outros aspectos teria transformado a vida da família num horror. Além disso, consta que deixara de se lavar fazia um ano, só caminhava descalço e, de vez em quando, aparecia completamente nu no meio da rua, motivos suficientes, portanto, para interna-lo num manicômio, o que, contudo, a família não queria fazer. Assim foi que tiveram a idéia de manda-lo para Colmar. A muito custo conseguiram leva-lo para lá, mas, uma vez em Colmar, o homem fugiu das irmãs de caridade que o conduziam ao asilo e só foi reencontrado horas mais tarde. As irmãs teriam, então, conseguido convencê-lo a entrar no asilo sem oferecer resistência. No meio da noite, o homem, cujo nome seria Shluemberger, pôs fogo no asilo de velhos de Colmar, matando a todos os quatrocentos e setenta e oito internos. Inclusive a si próprio.

(Tradução de Sérgio Tellaroli)

Three nights later in the foothills of the eastern mountains he woke in the darkness to hear something coming. He lay with his hands at either side of him. The ground was trembling. It was coming toward them.

Papa? The boy said. Papa?

Shh. It’s okay.

What is it, Papa?

It neared, growing louder. Everything trembling. Then it passed beneath them like an underground train and drew away into the night and was gone. The boy clung to him crying, his head buried against his chest. Shh. It’s all right.

I’m so scared.

I know. It’s all right. It’s gone.

What was it, Papa?

It was an earthquake. It’s gone now. We’re all right. Shh.

Alguns Toureiros

Novembro 14, 2009

João Cabral de Melo Neto, poeta recifense, passou trinta anos de sua vida trabalhando como diplomata para o governo brasileiro. Boa parte desse tempo ele passou na Espanha, sendo Sevilha a cidade que mais o marcou sua vida (exceção feita, claro está, a Recife), a qual dedicou vários de seus poemas e inclusive seu último livro, Sevilha Andando.

Neste espaço pretendo postar uma poesia cabraliana contida em Paisagens com Figuras (1954-1955), onde cabral descreve e exalta vários toureiros espanhóis que teve a oportunidade de assistir em sua estadia na Espanha: Manolo González, Pepe Luís, Julio Aparício, Miguel Báez, Antonio Ordóñez e, principalmente, Manoel Rodríguez, o manolete, que irá determinar o núcleo do poema ao ser o centro da comparação que Cabral fará entre o ato de toureiar e o ato da criação poética na metapoesia presente no fim do poema. Isto posto, vamos ao poema:

Alguns Toureiros

A Antônio Houaiss


Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema

Antonio Ordóñez

Perante a lei

Dezembro 16, 2008

Perante a lei
Franz Kafka

Há uma porta que dá para a lei. Diante dela, um guardião, o guardião da porta da lei.

Um homem simples chega e pede para entrar. O guardião responde que, naquele dia, não é permitido entrar.

O homem pensa um pouco e pergunta quando poderá entrar. O guardião responde que de repente, mas não agora. Como a porta da lei está aberta, o homem simples se agacha para olhar para dentro por entre as pernas do guardião. O guardião impede o homem de olhar e o adverte que lá dentro há outras portas e outros guardiães, cada um mais forte e feroz que o outro.

O homem simples não imaginava encontrar obstáculos, pois sempre pensara que a lei deveria ser acessível a todos os homens.

O guardião lhe empresta um banquinho para que possa sentar-se à porta da lei e ficar esperando a hora de entrar. Passam-se os dias e os anos.

O homem simples continua perguntando quando poderá entrar. O guardião lhe dá respostas vagas e impessoais, repetindo sempre que a hora de entrar ainda não chegou.

O homem simples tira a roupa do corpo e tenta subornar com ela o guardião da porta da lei. O guardião não recusa: “Aceito, para que você não diga que não tentou tudo. Aceito, mas ainda não posso permitir a sua entrada”.

Com o passar dos anos, o homem simples maldiz seu destino perverso, de dor, sofrimento e velhice sem poder cruzar a porta da lei, que ali continua, diante dele, emanando uma claridade que ofusca seus olhos cansados. Nada lhe resta senão a morte. Agonizando, ocorre-lhe perguntar ao guardião por que durante todos aqueles anos em que esperou, não apareceu nenhuma outra pessoa pedindo para entrar pela porta da lei.

E o guardião responde: “Ninguém quis entrar por esta porta porque ela se destina apenas a você!… Agora, com sua morte, terei de fechá-la”.

Roth e a Morte

Setembro 21, 2007



A Folha de São Paulo publicou uma entrevista com o célebre escritor norte-americano Philip Roth acerca de seu mais recente livro: Homem Comum (Everyman). Ao longo da entrevista a temática da morte, tema central de sua nova obra, inevitavelmente veio à tona. Eis então que o que inicialmente parecia ser apenas mais uma entrevista interessante tornou-se o acontecimento fantástico do relato de um homem sobre a indesejável das gentes, como diria Manuel Bandeira.

Folha de SP – Vamos. Há sete anos, o sr. reclamou que seus amigos estavam morrendo…
ROTH – [Gargalha] Pois isso não parou de acontecer!

Folha de SP – Daí o livro ["Homem Comum" começa com um enterro e o tema principal e doença e morte]?
ROTH – Sim, em grande parte. Foi publicado aqui em 2005. Bem, sim, eu tenho ido a muitos funerais e tenho perdido muitos amigos e eu comecei a escrever esse livro no dia seguinte ao funeral de Saul Bellow [escritor, 1915-2005]. O livro não trata de Saul, mas minha cabeça estava profundamente tomada pela inevitabilidade de que todo o mundo que eu conhecia e conheço vai morrer. Então, sim, escrevi como resposta à morte de meu amigo.

Folha de SP – O livro começa com a descrição de um funeral. É parecido com o de Bellow?
ROTH – Não. Nada.

Folha de SP – É parecido com o que imagina que será o seu?
ROTH – O meu próprio? Não… Era apenas um funeral padrão, era apenas uma maneira de introduzir a vida do homem, sua família, as pessoas que o amavam e o conheciam. Eu gostei de começar com o fim e então partir dali.

Folha de SP – O papel das mulheres no livro é muito forte. Como o sr. acha que as mulheres reagirão em seu próprio funeral?
ROTH – Nunca pensei nisso… Fui muito próximo de algumas mulheres. Algumas delas chorarão, outras não.

Folha de SP – Por que “Everyman” [o título original]? Por que o empréstimo de uma peça inglesa do século 15?
ROTH – O “Everyman” original é um conto de moralidade, é uma alegoria cristã sobre a morte. Não sou cristão, não suporto alegorias, então só peguei o título emprestado e fiz a minha própria peça sobre a morte. Só que a versão secular.

Folha de SP – Por que o personagem principal não tem nome?
ROTH – Ele não tem um nome porque originalmente eu não lhe dei um. E, quando eu estava trabalhando na segunda versão, percebi isso e pensei: “Não lhe dê um nome. Deixe ele ser conhecido por seus relacionamentos, como pai, marido, irmão, filho, amante, deixe ele viver por esses relacionamentos e tirar sua identidade por eles”. Que é como nós formamos nossa identidade, por aqueles que nos conhecem como realmente somos.

Folha de SP – O sr. pensa muito em sua própria morte, no momento em que “não será mais”, como escreve no livro?
ROTH – Bem, depois de uma certa idade, é difícil não pensar mais na morte de maneira mais freqüente do que antes. Aos 60, você começa a pensar freqüentemente e, aos 70, a coisa fica realmente séria. Você olha adiante e vê que não tem mais tanto tempo. E esse é um sentimento muito perturbador.

Folha de SP – Mas o sr. não tem medo de morrer?
ROTH – Não tenho? Você que está dizendo isso. Eu estou perplexo pela realidade à vista.
Folha de SP – Numa das passagens mais marcantes do livro, o sr. escreve: “A velhice não é uma batalha, é um massacre”.
ROTH – Você não concorda? Vá a um hospital e dê uma olhada ao redor… [Fica em silêncio]

FOLHA – Eu o deprimo com toda essa conversa?
ROTH – Ah, não, é preciso muito mais do que isso para me deprimir.


Confesso que ao término de minha leitura decidi ler o livro o mais rápido possível.

Até a próxima.

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Encenação

Escrita no fim dos anos 40 e publicada tão somente em 1952, primeiramente em francês e posteriormente em inglês (o autor costumava escrever suas peças nas duas línguas, seja primeiramente no francês e posteriormente no inglês, como o contrário) , Waiting for Godot é uma tragicomédia em dois atos escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett.

Eis um fragmento, presente no Ato II:

VLADIMIR:
Was I sleeping, while the others suffered? Am I sleeping now? Tomorrow, when I wake, or think I do, what shall I say of today? That with Estragon my friend, at this place, until the fall of night, I waited for Godot? That Pozzo passed, with his carrier, and that he spoke to us? Probably. But in all that what truth will there be?
(Estragon, having struggled with his boots in vain, is dozing off again. Vladimir looks at him.) He’ll know nothing. He’ll tell me about the blows he received and I’ll give him a carrot. (Pause.) Astride of a grave and a difficult birth. Down in the hole, lingeringly, the grave digger puts on the forceps. We have time to grow old. The air is full of our cries. (He listens.) But habit is a great deadener. (He looks again at Estragon.) At me too someone is looking, of me too someone is saying, He is sleeping, he knows nothing, let him sleep on. (Pause.) I can’t go on! (Pause.) What have I said?

He goes feverishly to and fro, halts finally at extreme left, broods. Enter Boy right. He halts. Silence.

Children’s Story

Fevereiro 19, 2007

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Children’s Story

Once upon a time there was a poor child,
with no father and no mother
And everything was dead
And no one was left in the whole world
Everything was dead

And the child went on search, day and night
And since nobody was left on the earth,
he wanted to go up into the heavens
And the moon was looking at him so friendly
And when he finally got to the moon,
the moon was a piece of rotten wood

And then he went to the sun
And when he got there, the sun was a wilted sunflower
And when he got to the stars, they were little golden flies.
Stuck up there, like the shrike sticks ‘em on a blackthorn

And when he wanted to go back, down to earth,
the earth was an overturned piss pot
And he was all alone, and he sat down and he cried
And he is there till this day
All alone…

Okay, there’s your story!
Night-night!

Escritor por Georg Büchner, presente na peça Woyzeck, musicada por Tom Waits em Blood Money
Em domínio público
Musicado por Tom Waits, em Orphans
Animação: http://www.youtube.com/watch?v=aYVlHqCC4Qo


Prefácio de O Estrangeiro

Setembro 11, 2006

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Posto o prefácio de O Estrangeiro(L’Etranger) escrito pelo autor do romance, Albert Camus, em 8 de Janeiro de 1955. Acabo de ler o livro e gostei bastante do prefácio de Camus, uma breve explanação acerca de sua obra.

Eu resumi O Estrangeiro há algum tempo atrás, com um comentário que admito que era extremamente paradoxal: “Em nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral de sua mãe, corre o risco de ser sentenciado à morte”. Eu apenas quis dizer que o herói do meu livro é condenado porque não joga o jogo. Sob este aspecto, ele é estrangeiro para a sociedade em que vive; ele vaga na borda, nos subúrbios de uma vida privada, solitária e sensual.
Este é o motivo pelo qual alguns leitores ficaram tentados a olhar para ele como um pedaço de entulho social. Uma idéia muito mais precisa do personagem, ou pelo menos muito mais próxima das intenções do autor, emergirá se alguém apenas perguntar como Meursault não joga o jogo. A resposta é simples; ele se recusa a mentir. Mentir não é apenas dizer o que não é verdade. É também, e principalmente, dizer mais do que é verdade, e tanto quanto o coração humano é capaz, expressar mais do que se sente. Isto é o que nós todos fazemos, todos os dias, para simplificar a vida. Ele diz o que ele é, ele se recusa a esconder seus sentimentos, e imediatamente a sociedade se sente ameaçada. Pedem a ele, por exemplo, para dizer que se arrepende do seu crime, de maneira formal. Ele responde que o que sente é muito mais aborrecimento do que real arrependimento. E este sentido obscuro o condena.
Portanto, para mim Meursault não é um pedaço de entulho social, mas um homem pobre e nu, enamorado de um sol que não deixa sombras. Longe de estar destituído de todos os sentimentos, ele é animado por uma paixão que é profunda pois é obstinada, uma paixão pelo absoluto e pela verdade. Esta verdade ainda é uma negativa, a verdade sobre o que nós somos e o que nós sentimos, mas sem ela, nenhuma conquista sobre nós ou sobre o mundo será possível.
Ninguém estará muito enganado, portanto, ao ler O Estrangeiro como a história de um homem que, sem heroísmos, aceita morrer pela verdade. Também devo dizer, de novo paradoxalmente, que tentei descrever no meu personagem o único Cristo que merecemos. Será entendido, após minhas explicações, que eu disse isso sem nehuma intenção blasfema, e apenas com a afeição um pouco irônica que um artista tem o direito de sentir pelos personagens que cria.


Aproveito e posto o primeiro parágrafo, uma das malhores passagens do livro, genial:
Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.