Um poema de Emily Dickinson
Junho 27, 2009
Emily Dickinson (1830-1886), poetisa norte-americana, tendo nascido, vivido e morrido em Amherst, Massachussets. Viveu reclusamente por cerca de vite e cinco anos em sua casa, evitando até mesmo receber visitas.
A morte é um tema central em sua obra, o que faz nós, brasileiros, lembrarmos do poeta recifense Manuel Bandeira que chegou, inclusive, a traduir alguns poemas de Dickinson para o português.
Posto um de seus poema mais famosos, Because I could not stop for Death, um de meus favoritos de sua obra poética.
Because I could not stop for Death,
He kindly stopped for me;
The carriage held but just ourselves
And Immortality.
We slowly drove, he knew no haste,
And I had put away
My labor, and my leisure too,
For his civility.
We passed the school, where children strove
At recess, in the ring;
We passed the fields of gazing grain,
We passed the setting sun.
Or rather, he passed us;
The dews grew quivering and chill,
For only gossamer my gown,
My tippet only tulle.
We paused before a house that seemed
A swelling of the ground;
The roof was scarcely visible,
The cornice but a mound.
Since then ’tis centuries, and yet each
Feels shorter than the day
I first surmised the horses’ heads
Were toward eternity.
(Tradução de Henry Alfred Bugalho em http://www.revistasamizdat.com/2008/10/poemas-de-emily-dickinson.html)
Considero especialmente a primeira e última estrófe brilhantes.
Uma Faca só Lâmina
Junho 26, 2009
Posto um dos melhores poemas que já tive a oportunidade de ler em língua portuguesa: Uma faca só lâmina (ou: serventia das idéias fixas), de autoria de meu conterrâneo João Cabral de Melo Neto. Sem mais delongas, ei-lo:
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
A Educação pela Pedra
Março 5, 2009
A Educação pela Pedra
Por João Cabral de Melo Neto
Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.
And Thus in Ninive
Fevereiro 24, 2009

And Thus in Ninive
Ezra Pound
Aye! I am a poet and upon my tomb
Shall maidens scatter rose leaves
And men myrtles, ere the night
Slays day with her dark sword.
Lo! this thing is not mine
Nor thine to hinder,
For the custom is full old,
And here in Nineveh have I beheld
Many a singer pass and take his place
In those dim halls where no man troubleth
His sleep or song.
And many a one hath sung his songs
More craftily, more subtle-souled than I;
And many a one now doth surpass
My wave-worn beauty with his wind of flowers,
Yet am I poet, and upon my tomb
Shall all men scatter rose leaves
Ere the night slay light
With her blue sword.
It is not, Raana, that my song rings highest
Or more sweet in tone than any, but that I
Am here a Poet, that doth drink of life
As lesser men drink wine.
E Assim em Nínive
Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.
Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.
Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.
Traduzido por Augusto de Campos
Preparação para a morte
Fevereiro 15, 2009

Preparação para a morte
Por Manuel Bandeira
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
Bendita a morte,
que é o fim de todos os milagres!
O Luto no Sertão
Fevereiro 5, 2009

O Luto no Sertão
Por João Cabral de Melo Neto
Pelo sertão não se tem como
não se viver sempre enlutado;
lá o luto não é de vestir,
é de nascer com, luto nato.
Sobe de dentro, tinge a pele
de um fosco fulo: é quase raça;
luto levado toda a vida
e que a vida empoeira e desgasta.
E mesmo o urubu que ali exerce,
negro tão puro noutras praças,
quando no sertão usa a batina
negra-fouveiro, pardavasca.
A Morte por Yeats
Janeiro 6, 2009
Death
Por William Buttler Yeats
Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone
Man has created death.
A Suposta Existência
Março 13, 2008

A Suposta Existência
Como é o lugar quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas sem ser vistas?
O interior do apartamento desabitado?
A pinça esquecida na gaveta?
Os eucaliptos à noite no caminho três vezes deserto?
A formiga sob a terra no domingo?
Os mortos, um minuto depois de sepultados?
E nós, sozinhos no quarto sem espelho?
Carlos Drummond de Andrade.
Funeral Blues de W.H. Auden
Fevereiro 5, 2008

Wystan Hugh Auden(1907-1923), grande poeta e escritor inglês, nasceu em York, cidade localizada no centro-norte de Inglaterra. Sua obra destaca-se pela constante variação na forma, conteúdo e tom. É característico de sua poesia a técnica impecável, das mais notáveis na poesia anglo-saxônica em todo o século passado.
O poema que por ora vos apresento, Funeral Blues, é o mais famoso de sua extensa obra, não restando dúvida a respeito. Tornou-se famoso mundialmente devido ao filme Quatro Casamentos e um Funeral, onde é recitado.
Embora tenha sido primeiramente publicado na peça The Ascent of F6 em 1937, quando contava então com cinco estrofes, a versão definitiva de Funeral Blues foi publicada tão somente em 1938, quando Austin o reduziu às famosas quatro estrofes. Sua versão final foi escrita para ser cantada pelo soprano Hedli Anderson, daí o título.
Isto posto, ei-lo:
Funeral Blues
W.H. Auden
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods
For nothing now can ever come to any good.
Creio que dificilmente tomarei conhecimento de um poema superior a este cujo tema também seja uma perda amorosa. De todo modo, aguardemos.
Até a próxima!
W.B. Yeats
Outubro 30, 2006
William Buttler Yeats nasceu em Dublin, Irlanda, a 13 de Junho de 1865, filho do pintor John Buttler Yeats e de Mary Pollexfen. Considerado por muitos, destacando-se T.S. Eliot, o maior poeta do Século XX, W.B. Yeats é, atualmente, meu poeta favorito, por motivos que ainda ei de conhecer. Por conta disso hoje, 29/10/2006, comprei sua obre poética completa, publicada pela wordsworth, e já estou me deliciando com sua poesia.
Posto três curtos poemas de Yeats que considero essenciais para a compreensão de sua obra:
The Second Coming
Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all convictions, while the worst
Are full of passionate intensity.
Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all around it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?
An Irish Airman Foresees His Death
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above:
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love:
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
Sailing to Byzantiun
That is no country for old men. The young
In one another’s arms, birds in the trees
- Those dying generations – at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.
An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.
O sages standing in God’s holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.
Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.
“Da briga do homem com os outros surge a retórica; da briga do homem consigo mesmo surge a poesia.” W.B. Yeats (tradução de Paulo Vizioli)
