Estou lendo o romance Extinção – Uma Derrocada (Auslöschung – Ein Zerfall) de Thomas Bernhard. Prosseguindo com meu hábito de selecionar algum trecho que tenha me impressionado ou chamado atenção dos romances que leio e postar neste espaço, farei o mesmo com Extinção.

“Pouco a pouco temos de repudiar tudo, dissera a Gambetti no Pincio, pouco a pouco ser contra tudo, para muito simplismente colaborar com a aniquilação universal que temos em vista, dissolver o velho para no fim poder extingui-lo inteiramente em benefício do novo. O velho tem de ser descartado, aniquilado, por mais doloroso que seja esse processo, para possibilitar o novo, ainda que não possamos saber o que seja novo, mas que ele tem de ser, sabemos, Ganbetti, disse a ele, não há volta. Naturalmente, se pensarmos assim, temos todo o velho contra nós e portanto temos tudo contra nós, Gambetti, disse a ele. Mas isso não pode impedir nossa idéia de trocar o velho pelo novo que desejamos, de reduzi-lo a pó. Rejeitar tudo, dissera a Gambetti, repelir tudo, em última análise extinguir tudo, Gambetti.”

Acabo de ler o brilhante romance O Animal Agonizante (The Dying Animal) de um de meus escritores contemporâneos favoritos Philip Roth, publicado em 2001, ou seja, no início do novo século. Não é a toa que há várias referências sobre isto ao longo do livro, principalmente em seu final.

Trata-se de um romance em que há a predomiância, à meu ver, de um tema central, a paixão obsessiva e enlouquecedora do protagonista por uma jovem hispância e a paritr desta perspectoiva desdobram-se três outros temas: velhice, morte e a condição feminina após a revolução sexual da década de 60. O romance é praticamente um monólogo do sessentão David Kepesh centrado na sua paixão doentia por Consuela Castillo, uma jovem de apenas 24 anos que havia sido sua aluna. A maneira como Roth constrói e descreve o impacto da presença de Consuela na vida de David é impressionante, abalando todos os aspectos de sua vida, desestabilizando-o por completo.

A comparação deste romance com Homem Comum (Everyman) é inevitável, não apenas pela proximidade dos temas (velhice e morte, principalmente) mas também por estarem cronologicamente muito próximos na obra de Roth (Homem Comum seria publicado tão somente quatro anos após O Animal Agonizante). Nos seus últimos romances a velhice e a morte são temas recorrentes em sua obra, afinal Roth já passou dos setenta anos e nesse estágio da vida humana pensa-se constantemente nestes temas. Como diria o próprio Roth em uma passagem brilhante de Homem Comum, “a velhice não é uma batalha, é um massacre”.
Não tenho muito mais o que escrever sobre O Animal Agonizante. Recomendo a leitura a todas e para finalizar eis um de meus trechos favoritos do romance:

“É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. O final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa. Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender isso só tem efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não não compreende nada. Para aqueles que ainda não foram velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida esté em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive.”

Tradução de Paulo Henriques Britto.

Demais

Um pai de família, querido e famoso fazia décadas por seu dito senso familiar extraordinário e que, num sábado à tarde, quando por certo o tempo estava muito abafado, matou quatro de seus seis filhos, justificou-se no tribunal alegando que, de repente, os filhos haviam se tornado demais para ele.

Aumento

No tribunal distrital de Wels, uma senhora com quarenta e oito condenações anteriores, que o juiz, logo na abertura deste seu mais recente julgamento, como relata o jornal local, caracterizou como ladra anciã e bem conhecida da justiça e cuja presente acusação se devia ao furto de um monóculo inteiramente inútil para ela, roubado havia pouco de uma falecida frequentadora de ópera, a qual já não conseguia andar fazia muitos anos, não ia mais à ópera e, por essa mesma razão, não apenas nunca mais utilizara o monóculo mas também o esquecera por completo, como se verificou ao longo do julgamento – essa senhora, pois, logrou ter sua pena de apenas três meses de prisão aumentada em mais seis meses mediante um safanão que desferiu no juiz tão logo proferida a sentença. Esperava conseguir no mínimo nove meses de prisão, porque não suportava mais viver em liberdade, alegou ela.

Prospecto

Um casal de Salzburgo que sempre trabalhou e agora gozava de aposentadoria dupla teve a ideia de, no final do inverno, fazer uma viagem para Zell am See, na região de Pinzgau, razão pela qual providenciou um prospecto da cidade, alvo de tantos elogios, que pudesse folhear para, dessa forma, escolher uma pousada que parecesse apropriada a seu intento e onde pudesse passar duas ou três semanas. E, com efeito, o casal, que gostava de viajar, encontrou no prospecto uma pousada que pareceu corresponder às expectativas e exigências de ambos, empreendendo, assim, sua viagem. Quando, porém, terminada a jornada bastante cansativa até Zell am See, os dois adentraram a pousada escolhida, foram obrigados a constatar que, em tudo o que haviam esperado, ela contrariava suas expectativas. Por exemplo, os quartos, que o prospecto descrevera como muito simpático, eram escuros, e pareceu aos cônjugues horrorizados que cada um deles continha um caixão fechado, no qual estava inscrito sempre e somente o seu nome.

Three nights later in the foothills of the eastern mountains he woke in the darkness to hear something coming. He lay with his hands at either side of him. The ground was trembling. It was coming toward them.

Papa? The boy said. Papa?

Shh. It’s okay.

What is it, Papa?

It neared, growing louder. Everything trembling. Then it passed beneath them like an underground train and drew away into the night and was gone. The boy clung to him crying, his head buried against his chest. Shh. It’s all right.

I’m so scared.

I know. It’s all right. It’s gone.

What was it, Papa?

It was an earthquake. It’s gone now. We’re all right. Shh.

Contos Favoritos

Setembro 14, 2006

1 – O Aleph, Jorge Luis Borges.
2 – O Nariz, Nikolai Gogol.
3 – O Veredicto, Franz Kafka.
4 – O Coração Denunciador, E. A. Poe.
5 – O Imortal, Jorge Luis Borges.
6 - O Sinaleiro, Charles Dickens.
7 – O Sonho de um Homem Ridículo, F. Dostoiévski.
8 – A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Guimarães Rosa.
9 – Emma Zunz, Jorge Luis Borges.
10 – O Sonho, Ivan Turgueniev.

Leituras (Prosa)

Julho 23, 2006

Últimas leituras:
Memórias do subsolo, Fiódor Dostoiévski.
A Hora da Estrela, Clarice Lispector.
São Bernardo, Graciliano Ramos.

Leitura atual:
Nineteen Eighty-Four (1984), George Orwel.

Próximas leituras(as mais prováveis):
O Estrangeiro, Alberto Camus.
O Processo, Franz Kafka

Até mais!

São Bernardo é um romance publicado em 1934 pelo escritor alagoano Graciliano Ramos(1892-1953), principal nome do movimento literário brasileiro conhecido como Geração de 30, sendo a prosa deste movimento classificada como romance regionalista (Nordeste). Ao lado de Graciliano Ramos, outros escritores de destaque do movimento foram José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e Érico Veríssimo. Trata-se de uma literatura de caráter construtiva, madura e com legado das conquistas estéticas da geração de 1922. Sua principal característica foi a denúncia social, retratando fielmente a realidade do nosso povo, em que as relações “eu” / mundo alcançam elevado grau de tensão.
A técnica de São Bernardo é marcada por uma linguagem dura, seca, fria e objetiva. Não há rodeios ou grandes momentos de descrição. Graciliano Ramos procura ser o mais objetivo possível e, ao contrário do que alguns possam achar, trata-se de uma escolha correta, pois combina perfeitamente com a estória narrada no romance. Não há uma palavra a mais ou a menos em cada passagem do livro.
São Bernardo é um romance narrado em primeiro pessoal no qual o narrador-personagem Paulo Honório em narra a estória de sua vida, desde sua ascensão à sua decadência. Nesta narrativa, nota-se que o protagonista a escreve com um único e claro objetivo: compreender a razão do suicídio de sua esposa, Madalena. Através de suas lembranças e da análise dos fatos , o narrador tenta alcançar seu objetivo. Não obstante, o leitor rapidamente nota que o narrador nunca obterá êxito em sua “empreitada”.
A narrativa de Paulo Honório demonstra incessantemente sua angustia, embora este tente, a todo custo, escondê-la. Embora durante toda a narrativa o narrador não relate que alguma vez tenha demonstrado seu amor à sua esposa, para o leitor não resta dúvida da existência deste. Talvez o orgulho de Paulo Honório seja a razão de sua frieza quanto a Madalena.
Na interpretação deste escriba, a incansável ambição de Paulo Honório foi o motivo de sua desumanização ao longo do livro. Primeiro foi a ambição de possuir a fazenda São Bernardo, de uma maneira nada ética e sem escrúpulos: Paulo Honório a obtêm através de um dívida não quitada. Contudo, o protagonista não consegue ver qualquer problema neste “negócio”, talvez por não ter infringido em qualquer momento a lei. A meu juízo, Graciliano Ramos através de Paulo Honório faz uma severa crítica aos capitalistas que, na visão do autor, por sua ambição por poder e dinheiro, não mede esforços para alcança-los. Depois veio a “posse” de Madalena, para usar as palavras do teórico João Luiz Lafetá: Paulo Honório trata seu casamento como um negócio, pois desejava ter um herdeiro para continuar seus negócios.
O crítico Antônio Cândido, sobre Graciliano Ramos, afirma que “[...] no âmago de sua arte, há um desejo intenso de testemunhar sobre o homem, e que tanto os personagens criados quanto, em seguida, ele próprio, são projeções deste impulso fundamental, que constitui a unidade profunda de seus livros”. Não posso atestar a veracidade de tal tese por ter lido pouco de Graciliano (apenas o romance aqui relatado e alguns contos), mas posso confirmar que no pouco que li trata-se da mais pura verdade.
São Bernardo retrata, ao contrário do que ocorre em Vidas Secas (também de Graciliano Ramos), os nordestinos que permanecem na sua terra. É o sertão nu, cru e com todos os ingredientes. Apesar desta abordagem, não se pode encarar a obra como apenas uma denúncia social, mas a descrição e análise da alma humana, assim como tantas outras obras da literatura universal. Dessa forma, São Bernardo nos apresenta como uma obra fundamental não apenas do Modernismo Brasileiro, mas de toda nossa literatura.

 

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