Relato de Carnap sobre Wittgenstein

Julho 27, 2006

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Ludwig Wittgenstein

Inaugurando a categoria filosofia neste paupérrimo blog, posto um trecho da autobiografia intelectual do filósofo analítico alemão Rudolf Carnap(1891-1970), no qual este relata seus encontros com o filósofo vienese Ludwig Wittgenstein(1889-1951) no final da década de vinte.

Pois muito bem, o filósofo Moritz Schilick(1882-1936) havia avisado ao seu companheiro do Círculo de Viena(Wien Kreis) que tomasse cuidado com o temperamento de Wittgenstein e que não fizesse críticas diretas a sua filosofia, pois este era avesso a discutir suas idéias com opositores.

Tendo isto em mente e sem mais delongas, vamos ao *relato de Carnap:

(Pág. 25)
Quando encontrei Wittgenstein, eu vi que os avisos de Schlick eram perfeitamente justificados. Mas seu comportamento não era causado por algum tipo de arrogância. Em geral, ele tinha um temperamento simpático e muito gentil; mas era hiper-sensível e facilmente irritável. Qualquer coisa que ele dissesse era sempre interessante e estimulante e a forma com a qual ele se expressava era freqüentemente fascinante. Seu ponto de vista e sua atitude com relação às pessoas e aos problemas, mesmo problemas teóricos, eram muito mais similares às de um artista criativo do que às de um cientista; alguém poderia dizer, similar às de um profeta religioso ou de um visionário.
[…]
(Pág 26-27)
Quando Schlick, em outra ocasião, fez um comentário crítico sobre um enunciado metafísico de um filósofo clássico (acho que era Schopenhauer), Wittgenstein surpreendentemente se voltou contra Schlick e defendeu o filósofo e seu trabalho.
Esta e outras ocorrências similares em nossas conversas mostraram que havia um forte conflito interno em Wittgenstein entre sua vida emocional e seu pensamento intelectual. Seu intelecto, trabalhando com grande intensidade e poder penetrante, tinha reconhecido que muitos enunciados no campo da religião e da metafísica não diziam coisa alguma. (…) Mas este resultado era extremamente doloroso a ele emocionalmente, como se ele estivesse compelido a admitir uma fraqueza numa pessoa amada. Schlick e eu, em contraste, não tínhamos qualquer amor pela metafísica ou pela teologia metafísica, e, assim, pudemos abandoná-las sem qualquer qualquer conflito interno ou arrependimento.

Muito interessante, não? A oposição de temperamentos entre Carnap e Wittgenstein era mesmo gritante: enquanto o primeiro era um sujeito extremamente equilibrado, o último, um completo desequilibrado.

*Tradução de Ivan Ferreira da Cunha.

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