Free Jazz!!! (II)

Agosto 1, 2006

panteras-negras.jpeg


Um sistema complexo
Autor: desconhecido

Pode-se indicar a posteriori algumas características comuns da grande maioria dos músicos de free jazz, sempre que se aceite esta esquematização com certa prudência e que não se esqueça que todo solista de alguma importância possui suas próprias regras. O aspecto mais aparente é a indiferença à tonalidade e por um ritmo pré-estabelecido. Outra característica é a indiferença. que à vezes chega a ser rejeição pela técnica musical e instrumental européia. Ao mesmo tempo cresce enormemente com relação ao tipo anterior de jazz o interesse pelas culturas não européias (musicais e não), especialmente as africanas e árabes.

Este aspecto está ligado com outra característica comum dos músicos do free jazz, isto é, sua conexão cada vez mais próxima com o ‘social’ americano e a tomada de consciência de sua própria cultura. Este aspecto e análogo à base do hard bop, nascido na mesma época (meado dos cinquenta), isto é, período das primeiras rebeliões negras e da afirmação de Martin Luther King e de Elijan Muhammad. Para indicar alguns dos nomes reconhecidos do free jazz, citamos as influências ‘cultas’ de Taylor, músico de tipo acadêmico, trabalhando com um instrumento de tradição européia como o piano (‘Sou tudo o que vivi. Não tenho medo das influências européias.

O importante é utilizá-las-como fez Ellington- na medida em que são parte de minha existência de Negro norte-americano’); a reação de Coleman com Charlie Parker e com a poética do bebop em geral; o papel inspirador de Sun Ra, o primeiro jazzista que ligou a música a um feito social, constituindo uma orquestra-comunidade capaz de autogestão econômica e de produzir seus próprios discos. Entre os precursores é preciso mencionar o trabalho de Lennie Tristano, com a diferença que seu trabalho limitava-se a pesquisas formais ligadas à experiência cool; Eric Dolphy, Bill Evans e principalmente Charles Mingus: porém estes se interessaram apenas por aspectos parciais.

O free jazz, no entanto, deve ser considerado como um sistema complexo, onde cada elemento só tem valor se relaciona com os demais. Há muitos jazzistas que surgiram nos anos sessenta que acusam influências do free jazz, mas de forma exterior e parcial, como Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Joe Henderson, Tony Williams, Bobby Hutcherson e outros. A atividade musical dos anos sessenta paralela aos grandes acontecimentos de rebelião e de associação das populações afro-norte-americanas levou a uma grande parte da critica a associar o free jazz com a revolução negra, simplificando o vasto âmbito das opiniões e dos movimentos espirituais dos músicos.

Um contato entre os artistas negros e as opiniões revolucionárias daqueles anos sem nenhuma dúvida existiu mas foi uma realidade extremamente complexa, que foi representada pela música de maneira mediana e não conformista. Falar de free jazz unicamente como de música de revolução e de ódio significa não compreender o significado espiritual e universal da música de Coltrane, Ayler, Coleman. Cherry, Lacy, Roswell Rudd e muitos outros.

FONTE: http://www.clubedejazz.com.br/ojazz/historia_freejazz_02.php
______________________________________________________________

Creio que este artigo desmistifica de vez o mito de que o Jazz seria um gênero musical desprovido de qualquer cunho sóciopolítico e, assim, uma música “alienada”.
A propósito, em nada diminuiria o Jazz caso este realmente fosse desprovido do supracitado cunho, ao contrário do que pensa alguns extremistas, pois julgar qualquer obra de arte em função de seu credo ideológico ou a falta deste é um dos maiores equívocos que se poderia cometer. Não se pode deixar de ler Borges por este em certa altura ter apoiado a ditadura militar argentina ou condenar a poesia de Eliot por este ser anti-semita.

2 Respostas to “Free Jazz!!! (II)”

  1. Davi Says:

    Também não acho que “alienação política” conte negativamente a um estilo musical. Deixemos os alienados musicais ouvirem seus manifestos musicados. 🙂

    Abraço,
    Davi.

  2. Sérgio Farias Says:

    Essa foi genial, Davi! 😀

    Abraço.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: