A Poesia Expressionista de Georg Trakl

Agosto 7, 2006

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Georg Trakl (1887-1914) é comumente considerado o maior expoente da poesia expressionista alemã. Originário de Salzburgo, Áustria, teve uma vida bastante conturbada e curta. Consta que desde sua adolescência consumia doses nada moderadas de cocaína, ópio e veronal, o que acabaria por o levar a vida em 1914, ao 27 anos. Há rumores de que fora um suicídio, o que, diga-se de passagem, não é de se estranhar ao conhecer sua obra.
Sua poesia, assim como grande parte da de outros expressionsitas, é marcada por uma profunda angustia, priorizando o mundo interior em relação ao mundo exterior. Destarte, sua obra é marcada por forte subjetividade e pela angustia, desespero e loucura humana. Outro aspecto marcante de sua obra é seu diálogo constante com o simbolismo, remetendo os poetas simbolistas franceses.
Atualmente, a obra de Trakl desfruta de ampla fama internacional. Há de se ressaltar a apreciação de sua obra por dois grandes filósofos do século passado: Ludwig Wittgenstein, que afirmara adimira-la, embora não a compreendesse, e Martin Heidegger.

Após esta breve explanação, exponho alguns poemas de Trakl:

Crepúsculo do Inverno

Zeus escuros de metal
Nas vermelhas revoadas
passam gralhas esfaimadas
sobre um parque fantasmal

Rompe um raio glacial
ante pragas infernais
giram gralhas vesperais;
sete pousam no total.

Na carniça desigual,
bicos ceifam em segredo.
Casa mudas metem medo;
brilha a sala teatral.

Ponte, igrejas, hospital
hórridos na luz exangue.
Linhos grávidos de sangue
incham velas no canal.

Trad. Marco Lucchesi

Aos Emudecidos

Oh, a loucura da cidade grande, quando ao entardecer
Árvores atrofiadas fitam inertes ao longo do muro negro
Que o espírito do mal observa com máscara prateada;
A luz, com açoite magnético, expulsa a noite pétrea.
Oh, o repicar perdido dos sinos da tarde.

A puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta.
A cólera de Deus chicoteia enfurecida a fronte do possesso,
Epidemia purpúrea, fome que despedaça olhos verdes.
Oh, o terrífico riso do ouro.

Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Constrói de duros metais a cabeça redentora.

Trad. Cláudia Cavalcante

Calma e Silêncio

Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o vôo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.

Trad. Cláudia Cavalcante

Vento Quente

amento cego no vento, dias lunares de inverno,
Infância, os passos se perdem discretos em negra sebe,
Longo toque noturno.
Discreta vem a noite branca,

Transforma em sonhos purpúreos tormento e dor
Da vida pedregosa,
Para que nunca o espinho deixe o corpo em decomposição.

Profunda em sono suspira a alma angustiada,

Profundo o vento em árvores destruídas,
E a figura de lamento da mãe
Vagueia pela floresta solitária

Desse luto silente; noites
Repletas de lágrimas, de anjos de fogo.
Prateado, espatifa-se contra a parede nua um esqueleto de criança.

Trad. Cecíla Cavalcante

Nascimento

Montanhas: negror, neblina e neve.
Vermelha, a caça desce a floresta;
Oh, os olhares de musgo da presa.

Silêncio da mãe; sob pinheiros negros
Abrem-se as mãos dormentes
Quando, vencida, aparece a fria lua.

Oh, o nascimento do Homem. Noturna murmura
A água azul no fundo da rocha;
O anjo decaído olha em suspiros sua imagem,

E pálido corpo desperta em câmara úmida.
Duas luas

Iluminam os olhos da anciã pétrea.

Dor, grito que dá à luz. Com asa negra
A noite toca a têmpora do menino,
Neve que desce de nuvem purpúrea.

Trad. Cláudia Cavalcante

Obs.: os poema traduzidos por Cláudia Cavalcante foram retirados do livro De Profundis e outros poemas, antologia do poeta publicada pela editora Iluminuras. Edição bilíngüe.

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6 Respostas to “A Poesia Expressionista de Georg Trakl”

  1. Jorge Ducan Says:

    AS POESIAS EXPOSTAS SÃO EXCELENTES,

  2. Jorge Ducan Says:

    MAIS QUE EXCELENTES, FAZ O LEITOR SE APROFUNDAR NOS LABIRINTOS DA ALMA, VER O GRITO INTERNO QUE SE MANISFESTA TAL COMO O “GRITO DE MUNCH”.


  3. o simbolismo me fascine..govrno com asas brancas de translucidas os meus passos pelas nuvens


  4. a poesia um me disse e era tardinha ainda me lembro:chovia sanguinea chuva de morcegos e andorinhas…minha infancia nunca cessou…eu mesmo posso toca-la de ontem para hoje…eu mesmo serei dentro em breve aquelas aves inssossegadas no alto …bem no alto!


  5. De fato, a poesia aqui vem dos demônios íntimos… de uma angústia existencial que lembra meu estado de desespero ante o absurdo do mundo… Mas o conselho é que devemos caminhar, masmo famintos e exangues… a pós-modernidade requer muito cuidado, com equilíbrio entre razão e emoção. Antes de ser poeta, Georg era humano e não possuia rótulo de ser o que era…

    crass-o@hotmail.com.br 19 anos, escreve poemas, contos, ensaios etc…

  6. jessica rayane dos santos Says:

    mim despertou avontade de mim aprofundar nesse assunto os poemas são otimos


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