Alguns Toureiros

Novembro 14, 2009

João Cabral de Melo Neto, poeta recifense, passou trinta anos de sua vida trabalhando como diplomata para o governo brasileiro. Boa parte desse tempo ele passou na Espanha, sendo Sevilha a cidade que mais o marcou sua vida (exceção feita, claro está, a Recife), a qual dedicou vários de seus poemas e inclusive seu último livro, Sevilha Andando.

Neste espaço pretendo postar uma poesia cabraliana contida em Paisagens com Figuras (1954-1955), onde cabral descreve e exalta vários toureiros espanhóis que teve a oportunidade de assistir em sua estadia na Espanha: Manolo González, Pepe Luís, Julio Aparício, Miguel Báez, Antonio Ordóñez e, principalmente, Manoel Rodríguez, o manolete, que irá determinar o núcleo do poema ao ser o centro da comparação que Cabral fará entre o ato de toureiar e o ato da criação poética na metapoesia presente no fim do poema. Isto posto, vamos ao poema:

Alguns Toureiros

A Antônio Houaiss


Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema

Antonio Ordóñez

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