The Lost Generation

Dezembro 2, 2009


A “Geração Perdida” é um termo cunhado por Gertrude Stein que se refere a escritores norte-americanos expatriados na Paris dos anos vinte, tendo como principais representantes Ernest Hemingway, F. Scottt Fitzgerald, John dos Passos, John Steinbeck e Ezra Pound. O texto a seguir é o terceiro capítulo do livro de memórias de Hemingway dessa época, Paris é uma festa, descrevendo como esse termo surgiu e as reflexões de Hemingway sobre tudo isso. Vale muito a pena ler.


Une Génération Perdue


Foi Fácil adquirir o hábito de parar na rue de Fleurus, 27, ao fim da tarde, em busca de aquecimento, dos grandes quadros e do bate-papo. Frequentemente Miss Stein não tinha visitas, mostrava-se muito amiga e durante muito tempo foi até afetuosa. Quando eu voltava das viagens que fazia para a cobertura de diversas conferências políticas, reportagens no Oriente Próximo ou na Alemanha, por conta do jornal canadense ou da agência de notícias para os quais trabalhava, ela queria que Ihe contasse todos os detalhes divertidos. Sempre havia coisas engraçadas a contar e ela gostava de ouvi-las, apreciando também aquilo que os alemães chamam de histórias de humor negro. Miss Stein queria conhecer o lado alegre do que se passava pelo mundo; nunca o lado real, nunca a lado mau.

Eu era jovem e nada sombrio e, como sempre havia coisas estranhas e cómicas acontecendo nos piores momentos, Miss Stein gostava de ouvi-las. Das outras coisas eu não falava: preferia escrever sobre elas.

Quando não tinha voltado de viagem alguma e ia até à rue de Fleurus para um bate-papo depois do trabalho procurava às vezes conseguir que Miss Stein falasse sobre livros.

Quando eu estava escrevendo, tinha necessidade de ler qualquer coisa nos momentos de descanso. Se ficasse pensando no trabalho, perderia meu texto antes de poder continuá-lo no dia seguinte.

Tinha que fazer exercício, cansar o corpo e era ótimo fazer amor com quem se amava. Isso era melhor do que qualquer outra coisa. Mas, depois, quando me sentia vazio, era preciso ler para não pensar no trabalho, nem me aborrecer com ele até poder retomá-lo. Já tinha aprendido a nunca esvaziar completamente meu poço literário, deixando que, à noite, as fontes que o alimentavam tornassem a enchê-lo.

Para manter o espírito afastado do que escrevia, às vezes, depois de ter trabalhado, lia escritores que estavam em plena atividade naquele tempo, tais como Aldous Huxley, D. H. Lawrence ou quaisquer outros, cujos livros eu pudesse obter na biblioteca de Sylvia Beach ou comprar nos sebos ao longo do cais.

– Huxley é um homem morto – disse Miss Stein. – Por que você quer ler um homem morto? Você não vê que ele está morto?

Não podia ver, então, que ele fosse um homem morto, e respondi que seus livros me divertiam e me esvaziavam a cabeça.

– Você devia ler somente o que é verdadeiramente bom ou o que é francamente mau.

– Estive lendo livros verdadeiramente bons todos os invernos, como fiz no último e como farei no próximo. Para dizer a verdade, não gosto de livros francamente maus.

– Por quê, então, lê essa droga? É uma droga empolada, Hemingway. Escrita por um morto.

– Gosto de ver o que estão escrevendo – disse eu – E descanso o espírito enquanto faço isso.

– Quem mais você está lendo agora?

– D. H. Lawrence – disse. – Ele escreveu alguns contos muitos bons, como O Oficial Prussiano.

– Tentei ler os romances dele. Ele é impossível. É patético e absurdo. Escreve como se fosse um doente.

– Gostei de Filhos e Amantes e de Pavão Branco, disse. Talvez deste não tanto. Não consegui ler Mulheres Apaixonadas.

– Se não quer ler o que é mau e deseja alguma coisa que prenderá o seu interesse e é maravilhosa, à sua maneira, deveria ler Marie Belloc Lowndes.

Nunca tinha ouvido falar dela, e Miss Stein emprestou-me O Inquilino, essa maravilhosa história de Jack, o Estripador, bem como outro livro sobre um assassínio, num lugar afastado de Paris que só podia ser Enghien les Bains. Eram ambos livros esplêndidos para depois do trabalho, os personagens dignos de crédito, o enredo e o terror nunca soando falso. Eram mesmo perfeitos como leitura para depois do trabalho, e li tudo que havia de Mrs. Belloc Lowndes. Eram poucos livros, nenhum tão bom como os dois primeiros, e nada foi tão bom como eles para as horas vagas do dia ou da noite até surgirem os primeiros belos livros de Simenon.

Penso que Miss Stein teria gostado dos bons Simenons – o primeiro que li foi ou L’Écluse Numéro 1 ou La Maison du Canal – mas não tenho certeza, porque, quando conheci Miss Stein, ela não gostava de ler francês embora adorasse falá-lo. Jane Flanner deu-me os primeiros dois Simenons que li. Ela adorava ler francês e já lia Simenon desde quando ele era repórter policial.

Durante três ou quatro anos em que fomos bons amigos, não consigo lembrar-me de ter ouvido Gertrude Stein falar bem de qualquer escritor que não tivesse escrito favoravelmente sobre sua obra ou feito alguma coisa para promover sua carreira, com exceção de Ronald Firbank e, mais tarde, de Scott Fitzgerald. Quando a encontrei pela primeira vez, ela não se referiu a Sherwood Anderson como escritor, mas falou ardentemente dele como homem, dos seus grandes olhos italianos, belos e quentes, da sua bondade e do seu encanto.

Pouco me importava com os grandes olhos italianos, belos e quentes, de Sherwood Anderson, mas gostava muito de alguns de seus contos. Eram escritos de modo simples e às vezes com elegância de estilo; ele conhecia as pessoas a respeito de quem escrevia e se interessava profundamente por elas. Miss Stein não quis falar de seus contos, mas somente dele como pessoa.

– O que acha dos romances dele? perguntei. Mas foi em vão; negava-se a falar das obras de Anderson como também das de Joyce. Se alguém se referisse duas vezes a Joyce não seria convidado a voltar. Era como fazer referências elogiosas a um general na presença de outro general. Você aprende a não fazer isso na primeira vez que comete o erro. Pode-se contudo mencionar o nome de um general desde que tenha sido derrotado pelo general com quem se está falando. O general com quem se está falando elogiará bastante o general derrotado, e entrará gostosamente em detalhes sobre o modo como o derrotou.

Os contos de Anderson eram bons demais para tornar amena a conversa. Eu estava disposto a dizer a Miss Stein o quanto me pareciam estranhamente pobres os romances

dele, mas isto teria sido mau também, porque seria criticar um dos seus mais leais defensores. Quando finalmente ele escreveu Dark Laughter, um romance tão terrivelmente fraco, vazio e afetado que não pude deixar de criticá-lo numa paródia,* Miss Stein ficou muito aborrecida. Eu havia atacado alguém que era parte de sua equipagem. Mas não se zangaria tanto assim, tempos atrás. Ela própria começou a elogiar Sherwood com entusiasmo somente depois dele ter decaído como escritor.

Ela se zangara um dia com Ezra Pound porque ele se sentou bruscamente numa pequena cadeira frágil e sem dúvida desconfortável, que talvez lhe tivesse oferecido de propósito, desconjuntando-a ou quebrando-a. O fato de ele ser um grande poeta, um homem gentil e generoso, que teria podido acomodar-se numa cadeira de tamanho normal, não foi levado em consideração. As razões de sua antipatia por Ezra, hábil e maliciosamente expostas, foram inventadas anos mais tarde.

Foi quando minha mulher e eu regressamos do Canadá e passámos a morar na rue Notre-Dame-des-Champs, sendo Miss Stein e eu bons amigos ainda, que me fez a observação sobre a geração perdida. Tinha tido algum contratempo com o arranque do velho Ford modelo T, que dirigia então; o rapaz que trabalhava na oficina mecânica e tinha combatido no último ano da guerra não se mostrara competente no tal conserto do Ford de Miss Stein, ou talvez não lhe tivesse dado prioridade sobre outros veículos. Seja como fôr, ele não tinha sido sérieux e fora severamente repreendido pelo patron da garagem, diante do protesto de Miss Stein. O patron lhe dissera: – Vocês todos são uma génération perdue.

– É isso mesmo o que vocês são. É isso o que vocês são – disse Miss Stein – Todos vocês, essa rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração perdida.

– Você acha? – perguntei.

– São – insistiu ela: – Vocês não têm respeito por coisa alguma. Vocês bebem até morrer…

– O tal mecánico estava bêbedo? – perguntei.

– Evidentemente não.

– Já me viu bêbedo alguma vez?

– Não. Mas seus amigos são bêbedos.

– Tenho ficado bêbedo algumas vezes – disse- Mas jamais estive aqui nesse estado.

– Evidentemente não. Não disse isso.

– O patron do rapaz é que estava provavelmente bêbedo às onze horas da manhã – disse eu. – É por isso que diz frases tão encantadoras.

– Não discuta comigo, Hemingway – disse Miss Stein. – Não adianta nada. Vocês todos são uma geração perdida, exatamente como o dono da garagem disse.

Mais tarde, quando escrevi meu primeiro romance, procurei contrabalançar a citação que Miss Stein fizera do dono da garagem com outra do Eclesiastes. Naquela noite, caminhando de volta para casa, pensei no rapaz da garagem e me perguntei se ele teria sido transportado alguma vez num daqueles veículos, convertido em ambulância. Lembrei-me de como costumavam queimar seus freios descendo estradas de montanha com uma carga completa de feridos, engrenados em primeira e, finalmente, até mesmo na marcha à ré; e de como os últimos modelos T foram jogados despenhadeiro abaixo, quando substituídos por grandes Fiats com boas caixas de mudança e freios de metal. Pensei em Miss Stein e em Sherwood Anderson, em egoísmo e preguiça mental versus disciplina, e pensei também: “veja só quem chama os outros de geração perdida!” E então, quando me aproximei do Closerie des Lilas, os refletores iluminando meu velho amigo – a estátua do Marechal Ney com a sua espada desembainhada – as sombras das árvores batendo no bronze e ele sózinho ali; sem ninguém atrás dele, lembrei-me de seu fiasco em Waterloo e concluí que todas as gerações eram perdidas por alguma coisa, sempre tinham sido e sempre haveriam de ser. Parei no Lilas para fazer companhia à estátua e beber uma cerveja gelada antes de ir para casa, para o apartamento sobre a serraria. Mas, sentado ali com a cerveja, contemplando a estátua e lembrando-me dos muitos dias que Ney tinha combatido pessoalmente com a retaguarda, na retirada de Moscou, quando Napoleão já tinha ido embora de carruagem, com Caulaincourt, pensei na cálida e afeiçoada amiga que Miss Stein tinha sido e nas belas coisas que dissera de Apollinaire e de sua morte no dia do Armistício de 1918, com a multidão gritando à bas Gillaume e Apollinaire, no delírio, pensando que estavam gritando contra ele. Prometi-me fazer tudo para servir a Miss Stein e ajudá-la a obter reconhecimento pela boa obra que fêz, enquanto eu pudesse, com as graças de Deus e de meu amigo Ney. Mas que fossem para o inferno sua conversa mole sobre a tal geração perdida e todos os rótulos sujos e fáceis. Quando cheguei a minha casa, atravessando o pátio e subindo as escadas, e vi minha mulher, meu filho e o gato F. Puss, todos felizes, ao pé da lareira, disse à minha mulher:

– Você sabe que Gertrude é boa, apesar de tudo?

– Sem dúvida, Tatie.

– Mas diz muita besteira de vez em quando.

– Nunca me dirige a palavra – disse Hadley. – Sou apenas uma esposa. Quem conversa comigo é a sua companheira.

Tradução de Enio Silveira.

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