Umberto Eco e a informação no mundo contemporâneo

Dezembro 19, 2009

Numa entrevista dada à Veja Digital o intelectual italiano Umberto Eco comentou a avalanche de informação que nos assola no mundo contemporâneo, focando na questão da internet e como lidar com tudo isso. Eis o trecho:

Veja – Na sua opinião, que impacto a internet vai ter na cultura?
Eco – Pela primeira vez, a humanidade dispõe de uma enorme quantidade de informação a um baixo custo. No passado essa informação era custosa, implicava comprar livros, explorar bibliotecas. Hoje, do centro da África, se você estiver conectado, poderá ter acesso a textos filosóficos em latim. É uma mudança e tanto.

Veja – E na política, o que vai acontecer?
Eco – O governo chinês está filtrando informação on-line. Programas bloqueiam o acesso ao site B e só permitem acesso ao site A. Mas há truques para chegar ao site B por meio do site A. O governo não pode controlar todos os sites existentes. A internet é como uma enchente, não há como parar a invasão de informação. Em situações críticas, esse excesso de informação é muito positivo. Durante uma conferência em Bolonha, um palestrante disse que se a internet existisse nos anos 40 Auschwitz não teria sido possível, porque todos teriam sido informados do que estava acontecendo. Eles não poderiam dizer, como dizem até hoje, “ah, eu não sabia”. A internet nos obriga a saber. Você não pode parar a informação.

Veja – Qual é o aspecto negativo?
Eco – A abundância de informação. Uma boa quantidade de informação é benéfica e o excesso pode ser péssimo, porque não se consegue encará-lo e escolher o que presta. Brinco dizendo que não há diferença entre o jornal stalinista Pravda e o New York Times dominical. O primeiro não possui notícia alguma e o outro tem 600 páginas de informação. Uma semana não é suficiente para ler essas 600 páginas.

Veja – No meio de tanta informação, como encontrar os sites de qualidade?

Eco – Hoje podemos encontrar na internet todos os textos de filósofos medievais. O problema é saber como vou adivinhar que eles estão lá. Esbarrei com esses textos durante uma pesquisa. Mas sou profissionalmente envolvido com esse tipo de estudo. Para uma pessoa mais jovem, a internet pode ser uma floresta: se você decidir virar para a esquerda em vez de ir para a direita, talvez deixe de achar o tesouro que está buscando. Existem muitos sites interessantes, mas há também muito lixo. Fiz uma experiência. Escolhi o tema Holy Grail (em inglês, cálice sagrado, no qual, segundo lendas medievais, Cristo teria bebido durante a Última Ceia). Sei que é um assunto que envolve bastante gente louca, que desperta fantasias inacreditáveis. Na primeira busca encontrei 78 sites. Dois continham boas informações enciclopédicas, dois forneciam dados de nível universitário, cinco misturavam informação enciclopédica com informação sem nenhum controle. O resto era lixo. Como podemos garantir que um jovem iniciante consiga distinguir entre a informação verdadeira e a falsa?

Veja – Boa pergunta…
Eco – Isso é algo que deveria ser ensinado nas escolas do futuro, mas ainda não sabemos em que cadeira. Estou cada vez mais pensando em criar grupos universitários que monitorem sites. Por exemplo, em filosofia. Eles selecionariam os sites interessantes. Então, se um jovem iniciar uma pesquisa sobre um assunto, poderá receber um aconselhamento razoável. Esse poderia ser um serviço de grande sucesso, até em termos econômicos. Hoje você aperta um botão e recebe 10 000 títulos sobre um tema. Só que você não tem tempo nem de ler os 10 000 títulos, sem falar nos livros – isso ilustra como o excesso de informação pode transformar-se em puro silêncio.

FONTE: http://veja.abril.com.br/especiais/digital4/entrevista.html

Pois é, esta é um questão que tem me preocupado muito nos últimos tempos. Um jovem como eu (21 anos) que cresceu com o advento da internet e interessado em questões de natureza intelecto-culturais se depara com este problema todos os dias: não há como dar conta da totalidade de informação que a internet nos fornece incessantemente (nem perto disso, aliás). Então acho que concordo com a opinião de Eco de que o remédio seria uma espécie de filtro que seja capaz de distinguir o lixo da qualidade. Talvez esse seja mesmo o segredo. Mas eis então a pergunta que então nos surge: qual a melhor maneira de determinar este filtro?

A refletir.

Uma resposta to “Umberto Eco e a informação no mundo contemporâneo”


  1. Parabéns pelo blog! Voltarei sempre!


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