Paulo Faria sobre Analíticos e Continentais

Fevereiro 2, 2010

Há uma passagem extraordinária na Crítica da Razão Pura, na Doutrina do Método, que contém uma reflexão sobre a natureza da filosofia.9 Kant observa que há dois conceitos de filosofia – veja bem, ele diz “dois conceitos”, não diz “duas filosofias” nem “duas maneiras de fazer filosofia”. São dois conceitos da mesma coisa, e o ponto visado por Kant é que estaremos perdendo algo de essencial acerca da filosofia se nos ativermos apenas a um dos dois conceitos. Ele os chama, respectivamente, o conceito escolástico (Schulbegriff) e o conceito cósmico (Weltbegriff) da filosofia. Segundo o conceito escolástico, a filosofia é exatamente o que os escolásticos fazem: a análise conceitual, o exame da validade de argumentos, etc. – assim se faz filosofia… Mas, em outro sentido, há um conceito de filosofia em que a filosofia não é apenas um assunto dos filósofos, dos escolásticos, porque diz respeito aos fins últimos da vida humana, da razão humana e há coisas que interessam naturalmente a todos os homens. E a idéia crucial aqui é que são dois conceitos de filosofia e não duas filosofias, ou duas maneiras diferentes de fazer filosofia, e que perdemos alguma coisa de fundamental na filosofia quando nos atemos a apenas um desses conceitos. No século XX, no que tiveram de pior, a filosofia analítica representou o conceito escolástico divorciado do conceito cósmico, e a filosofia continental representou o conceito cósmico divorciado do conceito escolástico. O que Kant está dizendo é que é preciso ter as duas coisas: o conceito escolástico sem o conceito cósmico é a filosofia degenerada em escolasticismo – e muito da filosofia analítica virou escolasticismo. (Quando você assiste discussões sobre o realismo modal, sobre a realidade de mundos possíveis, isso é como “quantos anjos podem dançar na ponta de uma agulha?”: é tão interessante, do ponto de vista lógico, e tão irrelevante quanto essa pergunta absurda.) Por outro lado, intuições de café existencialista em Paris sobre o sentido da vida ou o absurdo correspondem ao conceito cósmico divorciado do monitoramento pelo rigor analítico, pela análise conceitual, pelo controle do rigor de argumentos que é o que distingue o conceito escolástico de filosofia. Tipicamente, quando você tem apenas um dos dois conceitos, quando privilegia um dos dois, e empobrece a sua concepção de filosofia por causa disso, o resultado é o divórcio que, no que tiveram de pior, caracterizou a falta de comunicação entre a tradição analítica e a tradição continental. Você imagina um heideggeriano e um carnapiano se defrontando: aos olhos do heideggeriano, o outro passa por um alienado, por alguém que limitou seu horizonte a questões lógico-linguísticas que apenas encobrem os verdadeiros problemas; aos olhos do carnapiano, o primeiro é pouco mais que um charlatão, a fazer excursões divagatórias não monitoradas por nenhum controle de rigor argumentativo, sequer pelo respeito à gramática! Esse mal-entendido — é o que Kant está dizendo naquela passagem da ‘Arquitetônica da Razão Pura’ — é o confronto de duas concepções empobrecidas de filosofia.

Declaração do Prof. Dr. Paulo Faria (UFRGS) em uma entrevista concedida ao Programa Pet-Filosofia do Departamento de Filosofia da UFPR. A entrevista completa está disponível aqui. Vale a pena ler.

Advertisements

4 Respostas to “Paulo Faria sobre Analíticos e Continentais”


  1. muito bom, Sérgio. A passagem que Paulo Faria destaca é um bom modo de tratar impasses já quase ultrapassados postos entre filosofia analítica e continental. Kant, assim como Hegel, estavam, de fato, atentos a conciliar uma análise de questões extremamente complexas sem, no entanto, perder o rigor argumentativo.

  2. Leo Says:

    Grande Serginho, que coincidência. Encontrei o post googleando algo sobre o Paulo Faria, porque tomamos uma bela cana ontem, com ótimos papos que foram de Prior e metafísica do tempo a Heidegger. Saí pensando como eu gostaria de tê-lo tido como professor.
    Abraço


  3. Léo e Filipe:

    sugiro fortemente que leiam o mais rápido a entrevista completa.

  4. karine krewer Says:

    o problema contemporâneo a respeito dos analíticos e dos continentais, fabuloso!
    kant era o que eu estava procurando entre crátilo de Platão e a Doutrina das semelhanças de Walter Benjamim!
    Muito obrigada.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: