A geração perdida ganhou ou perdeu?

Maio 29, 2010

A geração perdida ganhou ou perdeu?

Uma revisita à Paris de Hemingway,
suas glórias, suas loucuras e seus
infortúnios – e a questão que suscita

Por Roberto Pompeu de Toledo

Era tudo tão louco naquele tempo. Como não gostava de carros com capota, Zelda, a mulher de Scott Fitzgerald, mandou arrancar a do seu Renault como se arranca a tampa de uma lata de sardinhas. O poeta dos “Cantos”, Ezra Pound, aprendia a lutar boxe com Ernest Hemingway. Bebia-se, bebia-se. Vinho tinto, vinho branco, encorpado, suave, Sancerre, Mâcon, Cahors, Châteauneuf-du-Pape, Pouilly-Fuissé. Uísque, cerveja, kirsh, xerez, rum, o licor caseiro de Gertrude Stein. Bebeu-se mais entre 1921 e 1926 do que no meio século seguinte. Bebeu-se cinqüenta anos em cinco. E havia as mulheres de ocasião. As duas que acompanhavam o pintor Pascin no Dôme, o famoso café do Boulevard Montparnasse, as duas que chegaram de navio com o poeta Ernest Walsh. Sempre em dupla. O conforto do dois em um. Está-se falando dos personagens e situações do livro Paris É uma Festa, de Hemingway, que acaba de ganhar nova edição no Brasil (Bertrand Brasil). Para quem gosta de fofoca sobre escritores, o livro é um prato cheio. Para quem gosta de acompanhar a viagem nostálgica de um autor marcante, dos mais significativos do século, em busca do glorioso tempo de juventude, também.

O livro explica como surgiu o rótulo de “geração perdida” pespegado à safra de escritores que, como Hemingway, se expatriaram em Paris na mocidade. Um dia, Gertrude Stein, que era mais velha e guru dos jovens que freqüentavam os concorridos serões de sua casa, ouviu, na oficina mecânica em que fora buscar o carro, um áspero diálogo entre o dono do estabelecimento e um jovem empregado. O dono estava furioso porque o empregado não tinha cumprido bem sua tarefa. “Vocês todos”, disse ele, ampliando para todo um grupo etário o alcance das falhas do rapaz, “são uma geração perdida”. Gertrude Stein tomou emprestada a expressão para atribuí-la a Hemingway e companhia. “É isso mesmo que vocês são”, disse ela. “Todos vocês, essa rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração perdida.” A guerra em questão era a I Guerra Mundial, na qual Hemingway foi motorista de ambulância.

O episódio é razoavelmente conhecido. Menos lembrada é a continuação que lhe dá Hemingway no livro. Ao deixar a casa de Stein, ele foi buscar consolo na Closerie des Lilas, outro famoso café do Boulevard Montparnasse, onde, copo de cerveja na mão, e contemplando a estátua do marechal Ney, que podia vislumbrar na calçada, se pôs a pensar que aquele ilustre militar, companheiro de Napoleão, ali representado de forma tão destemida, a espada desembainhada, acabara ingloriamente derrotado em Waterloo. Era a ilustração de como a glória é efêmera, e garantido o fracasso final. Hemingway acaba por concluir que “todas as gerações eram perdidas, por alguma razão”. Sempre fora assim, e sempre haveria de ser. Ao chegar em casa, naquela noite, comenta com a mulher que Gertrude é uma boa pessoa – “mas diz muita besteira de vez em quando”.

Que quer dizer que uma geração é “perdida”? Há pelo menos duas hipóteses. Ou bem é perdida porque perdeu (perdeu uma aposta, ou uma batalha, como Ney) ou porque se perdeu (desencaminhou-se, desperdiçou-se). É extraordinário, uma lição de como as frases, assim como a vida, podem percorrer os caminhos mais inesperados, que o obscuro homem da oficina, do qual nem se registrou o nome, nem o endereço, seja o autor da fórmula que iria qualificar todo um grupo de escritores. Só ele poderia explicar direito o que quis dizer com “geração perdida”. Infelizmente, a ninguém ocorreu perguntar-lhe. Passado o momento de raiva, talvez viesse a reconhecer que tinha dito uma grande “besteira”, como queria Hemingway. Mas o rótulo era bom, tinha um halo romântico que bem cabia ao charme daquele grupo, e pegou.

Fica-se a matutar na sorte das pessoas retratadas no livro, tão cheias de vida, tão na plenitude de suas forças e de suas esperanças. Scott Fitzgerald, o notável autor de O Grande Gatsby, terminaria em Hollywood, enredado no alcoolismo e trabalhando em roteiros freqüentemente recusados pelos produtores. Sua mulher, Zelda, com quem formou o mais esfuziante e mais doidivanas dos casais dos anos 20, acabou num sanatório, com irrecuperável distúrbio mental. Ezra Pound, que na II Guerra aderiu ao fascismo, e da Itália fazia programas radiofônicos de propaganda dirigidos aos Estados Unidos, amargou na prisão as décadas finais, culpado de traição da pátria. O próprio Hemingway, encharcado de bebida, de depressão e do sentimento da decadência, resolveu ele próprio dar cabo da vida, dando-se um tiro na cabeça. A soma de infortúnios é impressionante. Parece que eles perderam. No entanto, com exceção de Zelda, deixaram livros que lhes garantem ainda a admiração de quem os lê, tantos anos depois. Por esse ângulo, parece que ganharam. Realizaram aquilo a que se propuseram prioritariamente na vida.

Que é ganhar? Que é perder? Eis a inconclusiva conclusão desta história. Ah, se ainda fosse possível localizar o dono da oficina… Ele devia saber.

FONTE: http://veja.abril.com.br/111000/pompeu.html

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